Um texto enternecedor sobre amizade de Alan Freitas Passos

Deve ter sido hoje, uma semana depois do início do inverno, ao pé da Serra do Curral, que encontrei Marcelo pela segunda vez. Já me retorquiram, quando disse que a primeira vez é sempre ruim, que deveríamos, então, começar pela segunda. Coisa de mulher, mulheres.
O céu azul sem nuvens e a serra estava lá, ainda encurralada, a dormir como um cão enorme e pachorrento. Como o morro, cachorro em silhueta na janela lateral do meu quarto de dormir, que a Cia. de Cimento Portland Cauê triturou, pulverizou e reduziu a nada. Como se alguma vez eu tivesse tido um quarto de dormir só para mim.
Marcelo me oferece amizade transcendental. Quatro anos no Rui Barbosa, e três no Imaculada Conceição, eis tudo. E basta. Foi pego pela orelha pela mesma professora que me lascou uma varada na cabeça. No caso dele merecido, no meu não. Obrigado, Dona Anete. A Senhora me ensinou a ler.
Celso Henrique Teixeira de Carvalho viu que eu sabia jogar futebol. Foi a única vez na vida que eu fui escolhido para um time.
De Celson Alencar Soares Teixeira dizíamos que um pai fanho e um escrivão oligofrênico tinham perpetrado seu nome. Haroldo Duarte Jorge, Gérson Ramos, Carlos Márcio Cardoso e Mauro Siqueira Lopes, nem vou falar.
Pedro Ligth , Bianca, Ana Bem: algo brilha e esse brilho irá comigo.
Marcelo indo ao banheiro sem permissão e flagrado na volta, os espelhinhos para olhar as calcinhas da professora sempre de minissaia, as colas, José João Gabrich me passando a adição de polinômios de Ruffini e eu com Professor Pimentel e Professora Vânia Barbabela, mostrando português, inglês e francês do jeito que nasci sabendo.
Marcinho, sete-lagoano que se confortou no Brejo D’Água, meu amigo, a amizade de vocês é para isso que escrevo agora. Escrever é meio que morrer, como toda arte.
Ver Marcelo hoje, Marcelo Pacote, Marcelo jogador, Marcelo técnico. Rodolente de serenidade, tranquilidade e paz. Vaidade, nem um tiquim. Os belos cabelos e olhos castanhos, que deixavam as meninas loucas.
Marcelo pode não ser uma rua em Pedro Leopoldo, mas é uma avenida em meu coração.


