
Em tempos em que a memória parece cada vez mais volátil, Pedro Leopoldo faz um gesto contra o esquecimento: lança um livro que recolhe as expressões vivas da cultura local e as transforma em testemunhos duradouros. A obra — fruto da sensibilidade dos organizadores Georgina Alves Vieira da Silva, Ivan Domingues e Eduardo de Assis Duarte (todos pedro-leopoldenses) — será lançada no próximo dia 2 de outubro e é antes um rito que um registro, antes um abraço que um catálogo.
As festas populares ali descritas — o Boi da Manta, a Guarda do Congo, a Folia de Reis — não são apenas datas, mas territórios afetivos onde o tempo se dobra, a fé dança e a comunidade se reconhece. Essa celebração do cotidiano inclui artistas, artesãos, músicos e outros indivíduos que fazem da cidade um território rico a ser explorado em todos os sentidos.
A extensão da iniciativa se vê ampliada pela opção ética dos organizadores de recorrer a patrocinadores locais, numa pedagogia da corresponsabilidade que ensina, sem didatismo, que a cultura é obra de todos. “A adesão da Prefeitura Municipal, que adquiriu 180 exemplares destinados às escolas públicas e a visitantes institucionais, revela sensibilidade e compromisso com a valorização do patrimônio imaterial”, destaca Georgina Vieira, que é colaboradora do site AQUI PL .
O lançamento será acompanhado por programação cultural que inclui apresentação sintetizada da obra, apresentações artísticas e musicais e exposição de livros e artesanatos dos participantes. O livro é apresentado pelo médico Sérgio Bogado, paranaense de nascimento, mas que vive há 50 anos em Pedro Leopoldo. Confira a seguir o prefácio escrito por ele.
Um livro que é uma obra de arte
Convidado pelos organizadores deste livro – Georgina Vieira, Eduardo Duarte e Ivan Domingues – para apresentar a obra aos seus (acredito que muitos) leitores, me ocorreram algumas considerações, em meio à responsabilidade de tentar cumprir tão honrosa tarefa.
Em primeiro lugar, não sou escritor, a não ser em horas muito vagas, quando convidado pela jornalista Bianca Alves, que aliás assina, com a sensibilidade habitual, muitos dos perfis desta obra. No entanto, sendo médico há 40 anos, me considero um observador atento do ser humano, em seus momentos de graça ou tragédia.
Para o prazer, normalmente concorre a arte. Arte que se vale da criatividade e do talento para promover genuína alegria ou profunda reflexão. Que atua na formação das culturas e no incentivo ao diálogo. Afinal, literatura, música e imagens refletem nossa identidade, naquilo que ela tem de melhor e mais verdadeiro. Nos unem em comunidade e nos definem como cidadãos que amam a terra em que vivem.
Por razões como esta é que eu afirmo, com toda convicção, que este livro, ele próprio, é uma obra de arte, ao apontar e valorizar a atividade artística, prestando um serviço inestimável ao setor cultural em nossa cidade.
Nestas páginas, estão trabalhadores de praticamente todas as artes. É claro que, por seus próprios limites de tamanho, método de pesquisa e mesmo de proposta, o livro Arte & Cultura em Pedro Leopoldo: centenário, saberes e encantamentos não contempla todo o universo cultural de Pedro Leopoldo.
Mas é um importante retrato e um guia de valor inestimável no que nos traz de informação sobre a cultura e a arte, a partir das histórias e experiências de seus artistas. Através deste livro, nos é revelado que a cidade abriga um sem-número de pessoas que produzem, divulgam e assim preservam a arte e a cultura, seja ela erudita ou popular, da nossa região. E como é bom saber disso!
Temos gente que canta, toca os mais diversos instrumentos, rege, dança, escreve, pinta, esculpe, faz artesanato, grafitti, promove shows, mantém um cinema e ensina arte. Temos aqueles que preservam a memória, a cultura e o fazer artístico de nossos antepassados, em um trabalho constante e de décadas, como é o caso do Boi da Manta, das manifestações religiosas e populares, da Banda de Música Cachoeira Grande.
Esta última, aliás, com seus 112 anos de atividade contínua, é a responsável por termos um universo musical farto e fértil. Afinal, Pedro Leopoldo tem nas instalações da banda uma escola de música, gratuita e acessível. Qualquer família que adivinhe num filho o talento musical, pode levá-lo até lá para aprender teoria e prática – o que acontece desde os primórdios da banda, que hoje é também orquestra.
Alguns vão ter uma experiência luminosa e enriquecedora, como o é qualquer contato com a arte, e ficarão nisso. Muitos vão ter a música como hobby e outros, mesmo tendo outras profissões, farão questão de tocar na banda, deixando a cidade mais feliz. Haverá aqueles que, determinados, irão além, estudando e praticando para brilhar nos palcos do mundo. E, com isso, vão nos encher de orgulho.
Neste momento é que me ocorre uma dessas profundas reflexões que a arte provoca. O talento dos nossos conterrâneos, quando tem o apoio da comunidade, não é só deles, é de toda a cidade. Quando eles alcançam o sucesso, todos nós chegamos juntos, numa conquista coletiva que define o valor que conferimos à arte e à cultura. Nós aplaudimos nossos artistas, acompanhamos suas apresentações em praça pública, nos emocionamos e elogiamos como se fossem nossos filhos.
Meu sonho é que este livro sensibilize os políticos locais a priorizarem políticas públicas de cultura como serviço fundamental à população. Afinal, quando vejo um recorte tão rico de nossa cultura, com tanta gente fazendo arte de qualidade, a sensação que me vem é que tempos melhores virão.
Sim, eu quero que os impostos que pago financiem investimentos cada vez mais expressivos neste setor. Que tenhamos, a exemplo da escola de música, também escola de teatro, pintura, dança, feiras literárias e mais eventos musicais como o Festival de Luz ou o extinto Festival de Verão.
Afinal, arte e cultura também geram emprego e renda no ciclo virtuoso da economia criativa. Mas elas geram principalmente os momentos de graça: aqueles em que nos sentimos parte de algo maior, melhor e que transcende o ser humano para nos deixar mais perto de Deus.



