Em 1985, eles eram garotos de vinte anos, que amavam os Beatles e os Rolling Stones. Então estudantes do Cefet, os amigos moravam na mesma república, fundaram um time de futebol no Clube Social e um bloco de carnaval – a tudo isso denominaram Ybusguru, nome sem pé nem cabeça que se tornou uma identidade histórica. No alvorecer da democracia brasileira, eles se amontoaram em dois carros e pegaram a estrada em direção ao mar.



Quarenta anos se passaram desde aquela viagem que selou uma amizade para a vida inteira. Em 2025, agora sessentões, os companheiros do Ybusguru voltaram à estrada para repetir o mesmo roteiro. Saíram de Pedro Leopoldo no dia 18 de setembro para uma viagem de 13 dias pela Rota do Sol, passando por Guarapari, São Mateus, Conceição da Barra, Dunas de Itaunas, Prado, Caraíva, Arraial d’Ajuda e Trancoso, até chegar a Porto Seguro.
Revivendo sonhos e expectativas, subiram a bordo de um ônibus de pescaria – o Viva a Vida – dispostos a recordar a juventude, que ressurgiu com naturalidade nas brincadeiras, velhas canções das bandas Dire Straits e Genesis e muita alegria. O ônibus – um antigo Ciferal, usado para pescarias – parecia um parque de diversões para aquela turma de aventureiros: música da melhor (e da pior) qualidade, baralho, praia, chinelos de dedo e muita cerveja.
Conduzidos pelo motorista Betão, Paulo e Pedro Vilela, Ildeu Salomão, Nino Michelinli, Vagner Sena, Renato Andrade, Alberto Eduardo Cobertor, Marcus Sales Kiko, Roger Salomão Mingau, Valério Sena, Carlos Eduardo Menudo, Luiz Tondato e Marcelo Araújo se reencontraram. Mesmo que nunca tenham se distanciado. Outro que não deixou a turma foi o contador Paulene Rosa, que só não viajou porque estava participando de um seminário sobre reforma tributária.
A viagem teve até assessor de imprensa, que alimentou de notícias diárias tanto as famílias dos viajantes quanto a imprensa local, através das redes sociais. Mais jovem que os demais, Valério Sena segue a turma do irmão Wagner desde os dez anos de idade. “São sessentões, mas durante estes dias, pareciam mais a turma da 5ª série do Colégio Imaculada. Foi só palhaçada e, consequentemente, muita risada”, contou Valério.
Na balsa de Porto Seguro para Arraial, uma das passagens mais engraçadas da excursão. “Quem tem acima de 60 anos, não paga. A maioria não pagou. Muitos disseram que foi a primeira vez que exerceram seu direito à gratuidade do transporte”, entrega Valério.
A volta foi ainda mais emblemática, seguindo um roteiro que passou pelo norte do estado e pelo Vale do Jequitinhonha. O retorno é por Minas Gerais, então o mar deu lugar aos rios. Atravessam o Jequitinhonha, o rio das Velhas. Passaram por cidades como Almenara, Virgem da Lapa, até chegar em Diamantina.
Foram mais de 2.600 quilômetros, dormindo em pousadas e hotéis, curtindo a gastronomia e a cultura local, revendo e reconhecendo um circuito descoberto há 40 anos. Na véspera da chegada, pernoitaram em Virgem da Lapa. Às 6:30, as malas já estavam no ônibus, café às 7:00, orações e pé na estrada. O almoço foi em Diamantina
Seguiram o roteiro e o cronograma à risca: chegaram em Pedro Leopoldo na terça-feira, 30 de outubro, por volta das oito da noite. Não podia ser diferente: todos têm suas responsabilidades. Esposas, filhos e os amigos que não puderam ir esperavam no trevo da Cauê. Alguns entraram no ônibus, outros foram atrás de carro, entrando na cidade pela rua Nossa Senhora das Graças e anunciando: a turma do Ybusguru está de volta!
“Eu ando com esse povo há mais de 40 anos. E nunca vi uma turma tão unida há tanto tempo quanto esta. O que eles têm é amizade verdadeira”, garante Valério Sena.
“Amigo, para mim, é só isso: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por que é que é”, conclui Paulene, citando Guimarães Rosa.
Um relato
Vagner Sena comenta as mudanças encontradas nesta segunda viagem pela Rota do Sol. “Vimos algumas mudanças interessantes no desenvolvimento da estrutura turística de algumas praias como Santa Mônica, Dunas de Itaúnas, Prado, Arraial D’Ajuda, Trancoso. Antes praias quase virgens de chão batido, hoje são complexos turísticos internacionais. Em outras cidades, como Conceição da Barra, no Espírito Santo, a praia praticamente desapareceu e foi necessário um quebra-mar artificial para o mar não invadir a orla da cidade.
Para ele, o Ybusguru também mudou nestes 40 anos. “Constituímos famílias estruturadas com filhos e netos, carreiras profissionais de sucesso em várias áreas de atuação, fizemos viagens de turismo e trabalho no Brasil e para o exterior com nossas famílias. Mas ao refazermos a viagem da Rota do Sol com o nosso grupo de amigos Ybusguru, vimos que, por mais que o tempo e as paisagens mudem, é uma bênção divina preservar uma turma de sua juventude e compartilhar momentos inesquecíveis como os vividos em uma república, um time de futebol e um bloco de carnaval.
Além de viagens e aventuras como esta da Rota do Sol, quando verá que teus amigos não mudaram em nada e todos mantem o mesmo entusiasmo e alegria da juventude e de estarmos juntos. Isto para todos nós Ybusguru é o mais importante, pois nos permite contar aos nossos filhos e netos, como exemplo de vida, a história que construímos e escrevemos juntos no decorrer do tempo”.
Confira alguns registros da viagem, em fotos de Valério Sena:



































