I-
Meu irmão mais velho foi registrado Halem em homenagem ao astrônomo inglês Edmond Halley, porque em 1910 nosso pai viu o cometa Halley no céu noturno do Morro do Pilar e se fascinou. O escrevente não conhecia o astro errante e grafou o prenome exótico o melhor que pôde.
Amélia, filha caçula de Halem e Henriqueta, é personagem da história contada em seguida.
Atravessar Belo Horizonte de ponta a ponta, numa quinta-feira em final de tarde, pelo caos da avenida Cristiano Machado, era algo pouco atraente para meus atuais tempos de misantropo.
Uns 60 anos atrás, ou mais, meu primo Marcinho morava em Sete Lagoas. Além da esquistossomose, adquirida na cidade lacustre, e devidamente curada, trago lembranças da venda ambulante que fazíamos dos sanduíches que nossa tia celibatária produzia.
Márcio Barbosa também é personagem da história contada em seguida, que, em termos pragmáticos, resume-se a ter aceitado, com relutância, um convite para participar do lançamento de um livro no dia dois de outubro de 2025, no Clube Social de Pedro Leopoldo.
Nascido na barriga da miséria e pedro-leopoldense, por capricho de algum deus nonsense, eu morava na beira da linha (estrada de ferro), entre a ferrovia, um pontilhão de ferro e o ribeirão (ou córrego) do Matuto, o qual deságua no Ribeirão da Mata. Então, trens fazem parte importante de minha vida, assim como os papagaios feitos com varetas de bambu, baba-de-boi e papel de seda, que Márcio gosta de pintar.
Tudo explicado, daqui em diante deposito tudo nas mãos da editora, Bianca.
Bianca Alves é personagem importante da história contada em seguida.
II- A Viagem
Esta jornada pode começar com um cometa que encantou um menino em 1910 ou no dia 2, quando o motorista do Uber apontou seu nariz para os lados de Santa Luzia, por meandros labirínticos e meio que para mim cabulosos, tudo para fugir do engarrafamento de proporções bíblicas que assola a Cristiano Machado, portanto, todos os caminhos alternativos vindo ou indo em direção norte.
Ou então com dois moleques-de-pés-no-chão a carregar um balaio de pães com caldo que serão vendidos aos operários de altos-fornos em Sete Lagoas.
Mas será de trem, tem de ser de trem, pois trens são como filmes de celuloide e histórias em quadrinhos, as janelas passando e mudando a paisagem e são também como a vida, você pode ir para o último vagão e admirar a linha que se desenrola, mas não sabe dizer em qual estação terá que desembarcar. A linha de ferro se desenovela, como se a locomotiva fosse um papagaio que alguém está soltando lá no começo que não se vê.
O livro Arte & Cultura em Pedro Leopoldo, organizado por Georgina Alves Vieira da Silva, Ivan Domingues e Eduardo de Assis Duarte foi lançado às 19 horas no Clube Social. Ouço falar dele, porque suas páginas abrigarão conterrâneos da resistência cultural em minha terra que ameaça desmoronar e mais: duas estimadas pessoas da minha família.
Amelinha, alma gigante acomodada em delicada miniatura e em fascinante sorriso, olhos vivazes de esquilinho inquieto à procura de nozes-pecãs, minha sobrinha.
Márcio Barbosa, irmãos gêmeos que somos, por acaso gestados em barrigas separadas, meu primo.
Esta viagem poderia começar com O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho. Explico.
Primeiro, recusei o convite. Simplesmente porque sei que, tal como o coronel Ponciano de Azeredo Furtado, Márcio é lavado de vaidade: “mas disso não faço glória, pois sou sujeito lavado de vaidade, mimoso no trato, de palavra educada.” Amelinha, a socióloga, não precisa que o tio distante coloque louros em sua cabeça, pois sua arte é para os outros. Nenhuma dessas duas pessoas, pensei eu, disso faz glória, necessita as luzes voltadas para elas. Desejam sim que a luz delas chegue aos outros. Desimportante essa viagem sem começo nem fim.
Márcio, sem cisco sequer de vaidade no coração, é humilde de verdade, não a fingida humildade do Coronel Ponciano, que, em paradoxo faz dela, falsa que é, jactância e bazófia.
Recolhido ao canto de seu ateliê, admira-se a visitante: então é “esse” o artista? No caso, tudo que é desajeitado, estrambótico, empenado, gauche, excêntrico, alienígena, extraterrestre, inca-venusiano, antiterráqueo, toda a geometria de ângulos impossíveis e curvas retas, toda a luz da supernova que explode no amago do cosmos de todo artista, aparece, transparece e cintila em sua arte.
Há mais de 50 anos, quando a gente fazia o vestibular da UFMG no Mineirão, quem me emprestou um dos livros exigidos na prova de Português, “O Coronel e o Lobisomem”, foi Dona Zélia.
Em 1910, quando meu pai tinha 5 anos, o cometa de Halley riscava o céu noturno de um horizonte a outro. Impressionado, ele tentou homenagear o astrônomo no nome do primeiro filho, que um escrivão desavisado não anotou direito.
Parênteses: bem diferente do fiasco cósmico de 1985/86. Esperamos coisa mais caprichada dos céus em 2060/61.
Quando a filha temporã de meu irmão mais velho, o de nome aliterado de astrônomo, firmou o corpo, ele instalou um banquinho no quadro de sua bicicleta Monark e andava de cá para lá com aquela menininha de cabelos louros espalhados ao vento solar. Aquela cena toda me lembrava, me lembra um cometa, pois a palavra vem do grego e significa “estrela com cabeleira.”
A menininha risonha recebeu o nome de nossa doce tia Amélia, que morava em Sete Lagoas, na beira da Lagoa da Boa Vista, aquela que tinha olhos azuis pacíficos como um oceano tranquilo, da cor do encontro entre céu e mar ou como a mais rara e preciosa das águas-marinhas. Aquela que morreu de Doença de Chagas porque seu coração levou a sério a história de ser grande.
Quando a menininha cresceu ficou assim, tipo mignon, e chama-se Amelinha.
Márcio sempre foi artista. Domina as mais variadas técnicas. Tem uma criatividade inesgotável. Nossa amizade é um monumento erigido em madeira, ferro, argila, areia e terra desde o berço. Também dispensaria minha presença, que nada acresceria à importância, para ele, do momento.
Quem me tirou da toca, ao fim e ao cabo, foi Bianca, que me convenceu de que não era bem assim.
Estava todo mundo lá, minhas sobrinhas Amelinha e Lilia, Márcio e Edna, as filhas Luciana e Carolina, a linhagem que se precisa deixar, como Deus mandou. Bianca que me levou pelo braço, gente que eu não via há décadas, a iluminada Dona Zélia com o mesmo sorriso dos tempos do ginásio, Edson Jorge que nos legou o Cine Marajá, e todas as personagens que vejo agora no livro. Meus conterrâneos de outras eras e de agora, nenhum, assim como eu, aliviado do fardo dos anos. Até o prefeito estava por lá, imaginem!
II- Maus pedro-leopoldenses
Devo dizer em lamento e elegia pobre Pedro Leopoldo, pobre Cachoeira das Três Moças, pobre Cachoeira Grande? Ou em risada e alegria, evoé Pedro Leopoldo, jovens artistas à vista e velhos artistas dizendo até à vista?
Certa vez um jornalista de PL, decerto não foi o inefável Marcos Freitas, mencionou em seu pasquim os “maus pedro-leopoldenses.” Ignoro se o referido escrevinhador despontou para o anonimato como lhe convinha, ou continua disparando disparates.
Mas devo confessar que, na época, a carapuça me serviu, não sei bem por que. Ou sei. Até hoje pessoas que me conhecem bem às vezes vêm com essa história, uma atmosfera, emanação ou lenda de “mas você não gosta daqui.”
Como assim?
Como poderia eu não amar minha cidade natal, que acolheu meu pai e minha mãe, ambos estrangeiros, ela de Fortuna de Minas e ele de Jaboticatubas, e que deu seu nome a uma rua e a ela a cidadania honorária?
Como poderia eu não amar a cidade que mitigou nossa pobreza e onde aprendi as primeiras letras e tive toda a formação até completar o segundo grau (hoje ensino médio) no Rui Barbosa e no Imaculada, quase sempre com professores dedicados e inesquecíveis?
No ano em que frequentei o cursinho, primeira escola em que pisei fora de Pedro Leopoldo, isso só não foi possível graças a Pedro Litgh e o pai dele, Seu Ildeu, que diariamente às 6 da manhã nos levava de fusquinha para Belo Horizonte, onde trabalhava?
Falando em amigos e amigas, próximos ou distantes, que após sete décadas de existência quase que posso contá-los na mão esquerda de nosso atual presidente, não são a maioria de Pedro Leopoldo?
Nos primeiros dois anos da faculdade de Medicina, eu não ia e voltava diariamente de Belo Horizonte, sem pagar passagem, com um passe a mim doado pela Empresa Zezé, até que os horários ficaram impossíveis e tivesse que arranjar jeito de morar em BH?
Não teria sido Sélio Sena a me dar o primeiro jaleco e um livro de Farmacologia?
Não teria sido meu primeiro estágio (remunerado, diga-se) durante o curso de medicina, cumprido como plantonista na Maternidade?
E, mesmo antes de deixar a Maternidade para trabalhar em hospitais psiquiátricos, não foram Tadeu e os Issa que sempre me apoiaram e ajudaram?
Não estão enterrados, no alto do morro do bairro São Geraldo, meu pai minha mãe, seis irmãos e alguns amigos?
Não foi em Pedro Leopoldo que inventei os primeiros amores, chorei as primeiras mágoas de amor, brinquei com os primeiros amigos, assisti aos primeiros filmes e me lavei em ribeirão?
E não foi aí que até experimentei pela primeira vez coisas que nem é bom contar?
Seria um mau pedro-leopoldense Chico Xavier, porque mudou-se para Uberaba em 1959?
Seria um mau pedro-leopoldense Pedro Litgh, que mora sobre o caminho de Santiago, em León, na Espanha, há décadas, e destila seu amor por sua terra natal em preciosos artigos que em tempos publica por aí?
Seria um mau pedro-leopoldense Márcio Barbosa, por ser sete-lagoano ainda meio apátrida sem cidadania oficial?
Seria mau pedro-leopoldense Marcelo Oliveira, o jogador e técnico de futebol sereno e tranquilo que mora no bairro São Pedro, ali do outro lado da BR-3?
Seria má pedro-leopoldense Bianca Alves, a jornalista de mais brilhante currículo da história da cidade, que por puro amor decidiu morar e exercer seu ofício nela, e nela viver inferno e maravilha? Seria Bianca Alves, além de editora piedosamente cirúrgica, redatora impecável e entrevistadora calorosa e atenta, má pedro-leopoldense porque prefere o projeto idealista, sustentável e futurista de um fabricante de bebidas ao furor extrativista sem corpo (porque vira brita e pó) nem alma (porque foi vendida ao deus dinheiro) da mineração extrativista e sem raízes como os gafanhotos?
Agora, se me permitem, direi quem são os maus pedro-leopoldenses.
Maus pedro-leopoldenses são aqueles que não criaram ou, se o fizeram, não executaram um Plano Diretor decente que salve o que ainda sobrou do casario assobradado e controle a poluição visual no que sobreviveu da Rua Principal.
São aqueles que verticalizam a cidade em ritmo frenético e desordenado, sem ligar a mínima para preocupações estéticas ou urbanísticas.
Os que não produziram uma politica pública de cultura, uma casa de cultura, um teatro, uma vida cultural dinâmica, e que se contentam com discursos e promessas vãs.
Os que estão, por ganância, transformando nossa terra em cidade-dormitório (se já não é) e ainda assim dormem de consciência tranquila.
Os que alugam a pena, cálamo, Bic ou Montblanc e, em autêntico duplipensar do 1984 de George Orwell, conseguem tecer loas ao rugido feroz da trituração de nosso solo e falar mal de um projeto belo, mas, acima de tudo, sustentável, palavra atual, a ser repetida.
Seria Drummond um mau itabirano?
Hoje sou funcionário público. Pedro Leopoldo é apenas um quadro na parede. Um quadro de Márcio Barbosa. E como dói. Ontem mais que hoje, e hoje mais que amanhã.
III – Capítulo à parte
Da artimanha de defender o indefensável.
IV – A cidade-fantasma
Não, Pedro Leopoldo não será mais nenhuma Vila do Biribiri. Nem tampouco a “Petit Paris” de uma improvável belle époque dos anos 20, em pleno entreguerras na Europa (a belle époque durou do fim da guerra franco-prussiana até o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914). Licença poética que aceito de bom grado, pensando nos homens de terno, chapéu e gravata e nas escassas mulheres e crianças elegantes que seguem a banda engalanada na capa do livro em questão, que repousa diante dos meus olhos, evocando lembranças de um tempo que até parece que vivi. Não senhor, esta cidade não quer ser como suas vizinhas. Ela é diferente, seu povo é diferente.
Quando leio o demolidor texto de Marcos Lobato, sincero, triste, penso no volksgeist (espírito do povo) pedro-leopoldense, que compartilho. Orgulho sadio, quiçá hoje vazio de voltar a ser o que nunca tenha sido. Ou que, simplesmente, perdeu-se para sempre. Identidade perdida, em busca de si mesma, cidade outra de si mesma. Oligarquia rural embrutecida ou cidade-operária, calcárea, calcinada, sem espaços públicos decentes, sem árvores, sem parques, sem praças deleitáveis. Prédios nascendo feito Lego amontoado ao sabor da grana que mais destrói que ergue, mais coisas feias que belas. Tabuleiro de um Banco Imobiliário sem graça.
O monumento que mais me chama atenção na cidade, nas minhas raras chegadas, é o da maçonaria. Que mistérios, que silêncios, que ritos, que poderes regem essa cidade e para onde ela se dirige? Que dizer hoje da cidade que me deu régua e compasso? Haverá ainda esperança?
Para o implacavelmente lúcido Marcos Lobato, o melhor paralelo para Pedro Leopoldo é Comala, onde se passa o romance Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Que, diga-se de passagem, não é uma cidade fictícia, existe mesmo no estado de Colima, no México, perto de Guadalajara.
Cidade espectral, de futuro em ruínas, cidade-fantasma onde o vento varre mansinho areias desertas. Cidade-cicatriz que se espera tênue, e que não lhe venha ainda uma verruga no nariz. Cidade que se perdeu de tanto procurar a si mesma nas casas do quadro, na Fazenda Modelo, no Cine Marajá, nas pinturas de Pachequinho, nas notas do violinista cego, na exposição agropecuária, na estação passada, no reinado de um monarca iluminista
Como num sonho dentro de um sonho, procura energia para materializar a utópica essência do que é ou pode vir a ser sendo o que um dia foi. E se idealiza, se autoestiliza e se atira sobre os moinhos que giram cifras e cifrões.
Num dos meus aniversários, minha esposa me presenteou com o primoroso Dicionário de Lugares Imaginários, de Alfredo Manguel & Gianni Guadalupi. Estão lá o Sítio do Pica-Pau Amarelo, o País das Maravilhas e todos os lugares fantásticos do universo.
Por exemplo, o País dos Colhedores de Balões, situado entre Acima e Abaixo e Rutabaga:
“Principal produto do país, os balões de todas as cores enchem o céu no final do verão. Balões de pêssego, melancia, pão de centeio e pão de trigo florescem, além de balões de linguiça e de costeletas de porco. A colheita é feita por pessoas em pernas de pau. Se caírem, os balões se mantêm flutuando até retomarem o pé. Às vezes acontece de um colhedor cantar com tanta alegria que fica leve demais e é levado pelos balões. Quando terminar de cantar, seu coração ficará pesado e ele cairá em suas pernas de pau novamente.
Na fronteira desse país encontra-se o lugar onde são feitos os palhaços de circo. Eles são cozidos numa variedade de fornos – longos, para os palhaços compridos; curtos, para os palhaços pequenos. Quando está cozido, o palhaço é tirado do forno e encostado numa cerca, tendo o formato de um boneco branco com boca vermelha grande, até que chegam dois homens. Um deles joga sobre ele um balde de fogo branco, o outro sopra nele um fogo vermelho. O palhaço ganha vida imediatamente e começa a fazer estrelas na pista coberta de serragem junto à cerca.”
Pedro Leopoldo, hoje, para mim, é um lugar imaginário.
Meu coração de pedro-leopoldense, inquinado com injustiça de não gostar da cidade, deseja ardente e sinceramente que o uníssono clamar que ecoa do livro seja um primeiro alento, e não o último suspiro.
Belo Horizonte, 07 de outubro de 2025
Dedicado a todos e todas que fazem arte e cultura em Pedro Leopoldo.
(Fotos Rafael Narciso)




