Eu tive um sonho.
Dizem que os sonhos são resquícios do dia, ou lixo do cérebro, ou expressão do inconsciente, ou nosso espírito que vagueia num mundo paralelo, ligado ao corpo adormecido por um fio tênue, prateado e brilhante. Um filósofo francês os chamou de “pensamentos confusos”.
Segui o fio da meada, entendi tudo. Um poeta itabirano me assombrava na noite insone. Ventos sussurravam em meus ouvidos cansados que, na minha terra natal, a Fábrica de Tecidos tecia uma grande mortalha para o cemitério derradeiro e definitivo de Pedro Leopoldo. O Engenheiro não quer sobrados: quer toldos. Quer torres frias e feias que sepultaram o ingênuo menino que acreditava piamente que em Pedro Leopoldo não se poderiam erguer prédios mais altos que o La Poveda, o primeiro e único durante décadas. O solo é arenoso demais, entende, eles afundariam como um elefante na areia movediça? Tomou, inocente? Agora você vê, com os olhos que a terra há de comer, que cada dia submerge uma casa, um sobrado, um alpendre, uma moradia dos anos JK onde voavam gaivotas de louça nas paredes. E os prédios não afundam: brotam de uma hora para outra, pisoteando sem dó a cidade dos mortos, a que está enterrada. Nem tentam fingir que são bonitos, porque pombais não precisam de beleza. Afinal, sabemos como são os pombos, né?
Naquele estado onírico entre o sono e a vigília, o poeta de rosto de cristal me diz em segredo:
“Que a terra há de comer,
mas não coma já.
Ainda se mova,
para o ofício e a posse.
E veja alguns sítios
antigos, outros inéditos.
As tecelãs antigas, tias, moças que chegam em bicicletas de moça tecem a mortalha e parecem chorar. O sonho se tinge de pesadelo.
Eis senão, quando um coro de vozes brota quase na esquina. Cortejos, congados, bandas, fanfarras, orquestras sinfônicas, maestros e maestrinas, bailarinos e bailarinas em irretocável pas de deux, reis e rainhas mais poderosos que a empáfia dos burocratas intelectuais, artistas circenses, artesãos, escritores, atores, músicos, uma pá de alucinados. Um boi em manta espanta a ganância fantasiada de governança, pois o Carnaval aqui é outro. As ideias insanas são penduradas no poste, e não é como castigo. É que, assim expostas, são discutidas pelos que estão ali, a postos.
A noite fica clara ao raiar do dia, e ainda não adormeci, e pergunto se uma cidade pode-se salvar com poesia. Sem ser invocado, o poeta proclama:
Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.
Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.
Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.
De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
Adormeço enfim, e acordo lutando com a palavra nefelibata.
substantivo masculino e feminino
Pessoa que busca se esquivar da realidade; quem vive nas nuvens. [Por Extensão] Escritor que não cumpre regras literárias (acepção com sentido pejorativo).adjetivo Que se afasta da realidade; que vive sonhando sem ter os pés no chão; sonhador. [Por Extensão] Que não cumpre regras literárias (acepção com sentido pejorativo): escritor nefelibata. Etimologia (origem da palavra nefelibata). A palavra nefelibata tem sua origem pela junção derivada do grego “nephéle”, com sentido de nuvem, e “bátes”, capaz de andar, que anda.
Não desanimamos. Não dissemos, exangues: adeus, tudo! Não.
Eu tive um sonho. Eu vi uma cidade nas nuvens.
A cidade nas nuvens tinha uma represa e uma cachoeira com arco íris, onde, sob uma frondosa árvore, um marco de pedra indicava o lugar exato onde Chico Xavier, pela primeira vez, viu Emmanuel. Mesmo os incrédulos e céticos sentiam a energia do lugar, onde vinham rezar peregrinos de todo o Brasil, o país que mais tem adeptos do espiritismo kardecista no mundo.
Dali, partiam para a Fazenda Modelo, agora um parque municipal, aberto aos cidadãos. Gostavam de conhecer o escritório onde o médium trabalhava. Mas havia também crianças, tardes de domingo, balões vermelhos, piqueniques e algodão doce. A Fazenda Modelo está quase intacta. Dizem por aí que as avoengas telhas das cavalariças foram vendidas, não sei, mas as cavalariças e os cavalos estão lá.
A Fábrica de Tecidos, tombada pelo Secretaria de Cultura como patrimônio municipal, era uma feira de arte e artesanato, comida, flores, e a quitandeira, a doceira e a cozinheira, que Deus a tenha, com seu fogão a lenha, sorriam e e temperavam, pois na Fazenda Modelo há uma horta, há hortelã, coentro, cominho, salsa, cebolinha, erva-doce, manjericão e as especiarias secretas que só elas conhecem e não contam para ninguém.
A cidade nas nuvens tem uma destilaria famosa aberta à visitação, como as das Highlands escocesas. Afinal, nós, mineiros, somos montanheses. Highlanders. Luzia, na flor dos seus 13.000 anos, emprestada pelo Museu Nacional para uma exposição temporária, está lá, na Sala de Exposições Dr. Lund, que faz parte do complexo. Longas filas se formam à entrada.
Alunos de Arqueologia de muitas universidades assistem a palestras aqui.
Na Casa da Cultura, haverá concerto à noite. Hoje teremos Villa-Lobos e Mozart.
A cidade nas nuvens é toda arborizada. A fiação, aos poucos, vai-se tornando subterrânea. Nas partes mais antigas da cidade nas nuvens, não se podem mais derrubar casas. Ao redor, prédios de apartamento estão reduzidos a, no máximo, cinco andares. A publicidade visual está rigidamente regulamentada.
Na cidade nas nuvens há urbanidade, polidez, gentileza, arte, cultura, beleza, e até os cães e gatos, que não gostam de serem chamados de pets como as garrafas de plástico, se conhecem e se cumprimentam. Por falar em plástico, tudo que pode ser reciclado é reaproveitado.
Na cidade nas nuvens a economia é forte e sustentável, a prosperidade aumenta sempre e o ciclo extrativista foi definitivamente superado, morreu, e o féretro foi encaminhado à necrópole local, que é longe das nuvens, porque, lá, deixam que os mortos enterrem seus mortos. O Panela Cheia passou anunciando.
Acordei sereno e tranquilo. Lutei com as palavras, com a palavra nefelibata, e vi uma cidade nas nuvens.
“Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.”
“
O ciclo do dia
ora se consuma
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.”
Tive um sonho.
“Um sonho sonhado sozinho é apenas um sonho. Um sonho sonhado por todos juntos é a realidade.”
Este texto é dedicado a todos da Sociedade de Nefelibatas Quase Mortos de Pedro Leopoldo.
As citações são dos poemas “Os Últimos Dias,” “Conclusão” e “O Lutador”, de Carlos Drummond de Andrade.
A citação bíblica é de Mateus 8:22 na tradução da Bíblia de Jerusalém.
A frase sobre o sonho é, geralmente, atribuída a Raul Seixas.



