SOBRE A SUPERAÇÃO DO CICLO EXTRATIVISTA

SOBRE A SUPERAÇÃO DO CICLO EXTRATIVISTA

Artigo de Alan Passos *

Pedro-leopoldenses bem-pensantes, morando desde Léon, na Galícia, até no coração de sua cidade natal (se algum ainda lhe resta), contemplando o belíssimo horizonte ou a batear no Arraial do Tijuco, ainda se demoram a imaginar um futuro melhor para a terra onde nasceram.

Sonham com uma economia robusta, próspera e, principalmente, sustentável – o que significa setor terciário – afinal, existe potencial turístico e vida cultural vibrante gera riqueza e felicidade. Tudo isso é indústria, já que fábrica hoje pode existir só na nuvem. Logística (marketplaces, rendo ao termo em inglês), alguma já com 75% de automatização por robôs e IA, porto seco etc.) num lugar próximo a um aeroporto internacional, uma ferrovia e a Sete Lagoas, o que, com uma estrada de verdade, o coloca próximo à rodovia 040.

Aliás, Betim, com uma população quase dez vezes maior, tem o PIB per capita mais que o triplo de PL. Tem um entreposto da Amazon lá.

Nenhum prefeito sensato quer atrelar a economia de seu município a apenas uma atividade, pois uma crise setorial seria seu fim.

Uma incipiente indústria de tecidos (que dizem que vai virar cemitério), uma usina hidrelétrica e uma estrada de ferro geraram a cidade adotada e dominada logo por uma oligarquia rural dos terratenentes com suas vacas donas de divinas tetas. Muitos mamaram.

Depois, veio a pá de cal.

Atualmente, segundo a IA, serviços respondem por aproximadamente 40,3% do valor adicionado; a indústria contribui com cerca de 40,1%; a administração pública representa 18,9%; e a agropecuária aparece com participação residual de cerca de 0,7%.

Porém, atividade de extração e transformação de calcário e materiais minerais não-metálicos ainda é a base de sustentação econômico-financeira. Ou seja, a economia extrativista.

Como disse anteriormente, sempre que me ponho a escrever sobre Pedro Leopoldo, vem o espírito de Carlos Drummond de Andrade me obsedar.

Da janela de minha infância eu via um morro atrás das chaminés da Cauê. Em minha imaginação infantil era um cachorro deitado, que, nos dias de chuva e neblina, ficava azul. Ainda vejo seu fantasma, quando chego à cidade:

“Chego à sacada e vejo a minha serra,

a serra de meu pai e meu avô […]

Esta manhã acordo e

não a encontro.

Britada em bilhões de lascas

deslizando em correia transportadora

entupindo 150 vagões

no trem-monstro de 5 locomotivas

– o trem maior do mundo, tomem nota-

foge minha serra, vai

deixando no meu corpo e na paisagem

mísero pó de ferro, e este não passa.”

(“A Montanha Pulverizada, Menino Antigo (Boitempo-II, 1973).

O problema é que um dia acaba. Lembram-se de quando os diamantes saíam à flor da terra, no Arraial do Tijuco, na beira do Jequitinhonha?

Ora, mas os municípios mineradores são ricos…

Não entendam que digo que não deve existir mineração. Seria impossível, e o povo lá já está se preparando para minerar em asteroides. Afinal, somos das minas gerais. Somos mineiros. Mas não somos burros.

Em 05 de novembro de 2015 o desastre de Mariana matou 20 pessoas (uma desaparecida), acabou com Bento Rodrigues, Gesteira, Paracatu de Baixo, Barra Longa, e, de quebra, envenenou o Rio Doce.

32 anos antes, Drummond escrevera no jornal (na época publicava-se poesia em jornais) a Lira Itabirana:

“ I

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II

Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!

III

A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos
De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?”

Perguntem a Brumadinho sobre seus 270 mortos e a agonia do Rio Paraopeba, sobre o tsunami que aterrorizou a pequena cidade de 41.000 habitantes, onde todos eram ou parentes ou amigos próximos.

Eu deveria ter justificado, lá no começo, porque me arrogo o direito de dar pitaco sobre economia. Foi no começo dos anos de 1980, na antiga Fafich, que aprendi com a amantíssima professora Sônia Viegas que a palavra “economia” vem do grego oîcos, que significa casa ou lar e némo que significa gerir, administrar. Além de não ser uma ciência exata, transmite a ideia de que gerir a economia de um país, estado ou cidade, como conceito, é similar a administrar sua casa.

Engraçado que “ecologia” também vem de oîcos.

Não é nenhum euachismo, por exemplo, ao contrário, é bastante óbvio ululante, que nenhum ser ou entidade pode gastar mais do que ganha. Evidente também que a riqueza do município acarreta aumenta da receita que gera maior capacidade de investimento que aumenta a quantidade de consumo que eleva a arrecadação etc. Prosperidade gera riqueza, o trem todo, desde que não esteja transportando minério para a China, prospera; e a riqueza, desde que bem distribuída, melhora a vida de todos.

Sobre a China de Deng Xiaoping, a gente conversa em algum boteco.

Foi Pedro Ligth, lá da Espanha, que me indicou o livro “Por que as Nações Fracassam, de Daron Acemoglu e James Robinson (recomendo). Em suma, a economia extrativista extrai riqueza de muitos para beneficiar poucos. Age para explorar recursos naturais de forma predatória e vampirizar trabalho e renda, fugindo, em razão de sua própria essência, de inovações. Funciona quando o poder político é concentrado nas mãos das elites e as instituições não são inclusivas.

Lembremo-nos de que a Venezuela tem reservas de petróleo maiores que as da Arábia Saudita e a África mais de 90% dos diamantes e 50% do ouro do mundo.

“As nações fracassam porque suas instituições econômicas extrativistas são incapazes de engendrar os incentivos necessários para que as pessoas poupem, invistam e inovem, e suas contrapartes políticas lhes dão suporte à medida que consolidam o poder dos beneficiários do extrativismo.” (página 289).

Alan Freitas Passos

Médico-psiquiatra, psiquiatra forense, médico-legista ( RTD). Escreve de vez em quando

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