O NASCIMENTO DA MATERNIDADE E AS REGRAS DAS IRMÃS

O NASCIMENTO DA MATERNIDADE E AS REGRAS DAS IRMÃS

Uma Crônica de João de Deus Costa*

Acordava cedo. Selava o Periquito, meu piquira de estimação, e partíamos alegres para desempenharmos a agradável tarefa do dia. Garoto de seis ou sete anos, sentia-me desconfortável numa bolha matriarcal cercada por um mundo dominado pelos homens. Naquele dia, visitava todos os dez vizinhos de fazenda, numa distância aproximada de uma légua entre o ponto de partida e o final da jornada. Para um garoto que vivia isolado, a satisfação de sair e conviver com pessoas diversas era intensa. Curioso, procurava observar como se desenrolava o mundo masculino que eu sabia ser o meu.

Após a primeira hora de marcha, alcançávamos a primeira fazenda. Apeava e amarrava o piquira à sombra. Dirigia-me à sede da fazenda. Era recebido com farta mesa composta de doces, biscoitos e quitandas. Em algumas visitas, Periquito também era agraciado com água fresca e douradas espigas de milho. Terminada a função, sem que fosse necessária qualquer manifestação, o dono da casa entregava-me o montante correspondente à sua contribuição ao Padre Sinfrônio. Destinava-se à construção da Maternidade da Cidade de Pedro Leopoldo.

Da primeira à última visita, que se dava pelo final da tarde, o ritual se repetia sem muitas variações. Juntava todo o arrecadado em um embornal branco, amarrava e guardava no bolso da sela. Punha-nos de volta a galope para livrar-nos do ataque de salteadores de estradas, presentes ao cair a noite. Durante dois ou três anos, desempenhei a tarefa da melhor forma possível, sem nunca pensar em qualquer recompensa. Era uma grande aventura para um menino que só queria se tornar homem.

A vida seguiu. Um dia, que não consigo precisar, finalmente, tornei-me homem. Casei-me. Gerei filhos. Aproximadamente duas décadas após minhas aventuras de criança, estava com minha esposa grávida de oito meses, em visita à fazenda. Por algum motivo tive que sair, deixando-a acompanhada da Rosa, que cuidava da casa, e seu marido Nadinho, que era pedreiro e realizava alguns serviços de manutenção na varanda.

Duas ou três horas depois, eu estava de volta. Encontrei Rosa e Nadinho de mãos dadas, rezando diante da gruta de Nossa Senhora. Aflito, interpelei:

– O que houve?

Rosa, tentando demonstrar calma, respondeu:

– Assim que você saiu, ela entrou em trabalho de parto. Nadinho buscou socorro com Zé Lúcio, que preferiu, para ganhar tempo, levá-la para Pedro Leopoldo. Quando conseguimos acomodá-la na caminhonete, estava praticamente desfalecida e sangrava muito.

Atônito, voei para o hospital. No caminho, pensava no pior. Tudo levava a crer que se tratava de deslocamento de placenta. Quase sempre fatal.

Assim que cheguei à recepção, fui encaminhado ao Setor de Internação, o que de imediato me tranquilizou. Ao empurrar a porta do apartamento, deparei-me com a paciente perfeitamente instalada e em franca recuperação. Muito bem acompanhada por dois anjos da guarda: Dona Eni e Doutora Lulude. Aliviado, indaguei pela recém-nascida. No berçário. Protegida numa muito bem equipada estufa. Realmente tratou-se de um episódio de deslocamento de placenta. O pronto e eficiente atendimento salvou mãe e filha.

Se encerrasse aqui, seria a bela e edificante história do menino que ajudou a construir um hospital que salvou sua família. Contudo, não resisto a encerrar com uma história não tão edificante, mas muito mais saborosa. É claro que moradores mais tradicionais saberiam narrar com mais propriedade. Contudo, vou tentar, mesmo não sendo literal, passar o inusitado do ocorrido.

O hospital ficou pronto e equipado, mas ainda não funcionava em tempo integral, o que naturalmente não atendia à população, que começou uma forte campanha para o funcionamento completo. Pressionado, o Padre se serviu do púlpito da Igreja Matriz para prestar as devidas explicações:

“Caríssimos irmãos, realmente nada justifica que o hospital ainda não tenha sido inaugurado plenamente. Estamos presos a um pequeno detalhe. Como toda instituição,  precisamos de um estatuto, no qual ficam estabelecidos as normas, regras e procedimentos que devem ser obedecidos. Temos informações seguras de que o referido estatuto já se encontra para impressão na Gráfica Tavares. Para finalizar a questão, as Irmãs estão apenas esperando que se lhes passem as regras para iniciarem os trabalhos noturnos. Ide em paz. Que Deus os acompanhe.”

* João de Deus Costa é nascido na fazenda da Cachoeirinha, em Pedro Leopoldo, pelas mãos da parteira e mãe preta Maria Esteva, em 11 de outubro de 1950. É um quase-historiador, quase-cozinheiro e agora pretende ser um escritor por inteiro. Já morou no norte e no sul, mas é absolutamente mineiro. Tem duas filhas, quatro netos e incontáveis plantas – é acima de tudo um jardineiro.

Bianca Alves

Criadora e editora do projeto AQUI PL, é formada em Comunicação Social pela UFMG e trabalhou em publicações como os jornais O Tempo, Pampulha, O Globo; revistas Isto é, Fato Relevante, Sebrae, Mercado Comum e site Os Novos Inconfidentes

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