
Entre meados dos anos 1960 e 1970, vivi em Pedro Leopoldo uma juventude marcada pelo espírito coletivo, pela fé e pela esperança de um amanhã mais justo. Éramos jovens que, mesmo sob os “anos de chumbo” e o olhar atento de uma sociedade conservadora, encontrávamos formas próprias de enxergar o mundo. Inspirados pelo Concílio Vaticano II, acreditávamos que a fé podia dialogar com a vida social e com os sonhos de transformação.
A cidade pulsava em seus espaços de encontro: os bailes de Nicolau Neto, com o brilho das Glamour Girl, embalados pela banda de Pedro Elísio; os carnavais no Fubá, no Industrial e na Rua Comendador, que se transformava em verdadeiro sambódromo; os barzinhos e, sobretudo, os dois cinemas – Marajá e Central. O Cine Marajá era palco de shows, peças e formaturas, enquanto o Central oferecia filmes de arte e servia de auditório para palestras e reuniões sindicais.
O Colégio Imaculada, já estadualizado, era mais que escola: era espaço de formação intelectual e humana, onde amizades sólidas nasceram e permanecem vivas até hoje. A Rua Comendador, então repleta de casas, era extensão natural dessa convivência: vizinhos eram também colegas de classe, parceiros de brincadeiras e cúmplices nos estudos para os vestibulares em Belo Horizonte, fronteira que as moças da época começaram a romper.
Por uma feliz coincidência, neste aniversário de 102 anos da cidade, o jornalista Beto Braga me pediu um texto projetando Pedro Leopoldo no futuro, enquanto Bianca Alves me solicitou um relato sobre o passado — um sem saber do outro. Essa dupla convocação revela o sentido da celebração: o passado não como nostalgia, mas como memória viva, que se entrelaça com o olhar para o amanhã.
Pedro Leopoldo é feita dessa trama: fé, cultura, amizade, opções políticas e esperança. Uma cidade que, ao celebrar sua história, reafirma sua vocação de seguir adiante sem esquecer de onde veio.





