A gravata do juiz que virou bispo em Pedro Leopoldo

A gravata do juiz que virou bispo em Pedro Leopoldo

Crônica (da vida real) de Roberto Auad*

 

Eu conheci o Fernando, quando ele estava, creio eu, no quinto ano da Faculdade de Direito da UFMG ou já no Mestrado, não sei bem, mas foi na mesma época que me candidatei para a diretoria do Caap  – Centro Acadêmico Afonso Pena – e fiquei sabendo que ele tinha sido presidente e um dos melhores que a entidade já tivera.

Fizemos uma chapa de unidade e tinha da Arena ao Partidão, um balaio de gatos, só a Bia não aceitou compor o balaio e fez uma chapa de oposição, o que foi muito bom, pois toda unanimidade é burra. Ganhamos e ganhamos bem, inclusive com o apoio do Fernando e outros de sua geração como o Chico, Magid Nauef Lauar, que foi o presidente de honra da chapa, Ronaldo Garcia Dias, já naquela época referência no direito penal, e até o Anastasia e o Flávio da Centelha.

Depois só fui revê-lo quando ele e o Waltinho Santos tinham um escritório na Rua Sergipe e eu namorava e babava por sua estagiária. Passado um tempo, como todos já esperavam, ele passou no concurso do TRT-3 e começou a carreira de magistrado.

Todos sabem que a carreira de juiz, no início, é uma verdadeira “via crucis”. Juiz substituto, ia de uma comarca para outra, até que aparecesse uma vaga definitiva. Era um mês no norte de Minas, outro no Triângulo e assim ia, até aparecer uma comarca para o juiz poder fincar raízes e, no mínimo, conhecer a cidade.

O Fernando sempre foi bem humorado e tinha uma tranquilidade de fazer inveja a um budista. Mas por mais que o sujeito seja gente boa, sempre tem uma pedra no caminho, aliás, mineiro tem sempre que dar uns bicos numa pedra e o Drumond não nos deixa mentir.

Numa bela sexta feira-feira , ele em Frutal, pensando em voltar para Belo Horizonte , encontrar os amigos e tomar um chopp… você pode estar perguntando, qual o motivo de ele não tomar o chopp na cidade que estava, ora, lembra das pedras no caminho e do Drumond?

Pois é, juiz que se senta no bar de uma cidade do interior, no outro dia vira o maior cachaceiro e, no mínimo, irão dizer que ele saiu do bar completamente bêbado, carregado, vomitando e mijado, etc…etc… Meu amigo, as pedras daqui têm mais olhos que as pedras doutros estados.

Ele havia sido estagiário, junto com o Luís Phellippe, do Professor Ozires Rocha, outra pessoa sensacional, que vendo a natureza dos dois, deu todas as dicas para que, quando viessem a se tornar juízes, não caíssem nas armadilhas das pedras do caminho e eles ouviram atentamente todos os conselhos do professor.

Pois bem, estamos em Frutal, ele pensando no chopp, recebe a notícia do tribunal que, na segunda, deveria estar em Pedro Leopoldo e ficar lá até o juiz titular retornar de suas férias. Até lhe soou bem a notícia, afinal a cidade está a 50 quilômetros de BH, terra do Quintão, do Reis de Paula e, claro, do inesquecível Dirceu Lopes. Cidade aprazível, pacata, povo tranquilo e dava para ir e voltar de BH todos os dias.

Na segunda, às 6:30, pegou o carro e foi para o fórum da Justiça do Trabalho. Chegando lá, viu que esquecera a gravata. Como era no centro, quase ao lado tinha uma loja, na verdade um magazine – nos anos 80 e 90, loja chique era magazine – na porta do qual estacionou e esperou a abertura.

Estava ali, sério, compenetrado, bem vestido, com um terno que ele só pode ter comprado no Dyrant, mas sem a gravata e com a agenda. Naquela época, advogado juiz, delegado, promotor e até estudante de direito tinha uma agenda e indefectivelmente de capa preta de couro, courvin ou outro tecido imitando couro, parecia uma bíblia mórmon.

Na porta da loja, foi o primeiro a entrar e já causou espanto, pois cidade pequena e naquela época bucólica e onde todos se conheciam, aquele rapaz era como se fosse um alienígena pousando na loja. Uma vendedora muito solícita o atendeu e ele foi direto ao ponto, quero uma gravata, seco assim.

Mas em meia hora começariam as audiências e sabe como é que são as pedras, no mínimo o papo da pracinha do coreto no final da tarde seria mais ou menos assim: viu o novo juiz? – num vi não! – mas fiquei sabendo que chegou atrasado, sem gravata, pois passou a noite no puteiro e lá a esqueceu.

Outros iriam afirmar, com toda convicção, que ele estava bêbado nas audiências e sem gravata.  Estas situações dos juízes nas pequenas cidades, isso só não é pior do que os maridos das promotoras de justiça, que quando passam na rua, o sussurro é o seguinte: – lá vai o marido da promotora! – e complementam com um vagabundo ou gigolô… é, meu amigo, as pedras de Minas são forjadas em aço.

Expostas as gravatas, escolheu logo a primeira, perguntou quanto era e a vendedora, tentando vender mais algumas peças, perguntou: o PASTOR não quer ver umas camisas? Estão em promoção! Fernando tirou os óculos, franziu a testa, fechou a face fazendo pose de bravo e respondeu rispidamente.

– Pastor não! Bispo!

Todos ficaram num silêncio sepulcral e reverencial, afinal nunca tinham visto um bispo. Ele paga, sai e vai para o fórum, sorrindo, gargalhando, quase chorando… e assim passou o dia. E sempre que sorri ao acaso, pode ter certeza que é por causa do causo.

Lembram das pedras mineiras e as do poema do Drumond? Pode esquecer, pois existe uma lei universal descoberta em 1848, que ê a seguinte: tudo que é sólido desmancha no ar. No final do dia a conversa na praça principal de Pedro Leopoldo, era assim:  – Viu o novo juiz? – Vi não! – Mas fiquei sabendo que além de ser juiz, é bispo, a gente tem de ter cuidado, porque a condenação da terra a gente resolve, mas a de Deus, é só no inferno.

PS – não identifiquei exatamente nenhum dos nomes citados, pois dá que sou processado em perdas e danos… e pior, se for processado pelo bispo, aí é como o homem do coreto falou: condenação de enviado de Deus é inferno na certa.

*Roberto Auad se diz um “simples advogado”. Foi presidente do Sindicato dos Advogados de Minas Gerais, ex-presidente do Caap e conduziu, na Cemig, a primeira greve de advogados do Brasil. 

Redação

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