Crônica de João de Deus Costa*
A casa senhorial fora construída com boa madeira de lei e com os poucos recursos técnicos disponíveis, porém com muito engenho e arte. De sua varanda os moradores Fernão e Esmeralda descortinavam todo o entorno da Quinta do Fidalgo. Atentos, procuravam distinguir o forte ruído vindo de algum ponto próximo. O Rio das Velhas? Na estação das águas, desaba acelerado das penhas da Serra da Gandarela. Desce rápido e caudaloso.
O Rio Arrudas chega forte após receber toda a água derramada pelas vertentes da Serra do Curral e da Serra do Rola Moça e engrossa o das Velhas, que robustecido segue sua marcha. Poucas léguas abaixo, é alcançado pelo Ribeirão da Mata, coletor das águas vertidas pelo Pico da Roseira e da Serra das Aroeiras.
Assim reforçado, parte célere rumo à Barra do Guaicuí. Alcança o Velho Chico. Quando se juntam, partilham o sonho de alcançar o litoral. O objetivo de ambos é libertar-se dos limites impostos pelas margens e se lançarem livres na imensidão profunda do oceano. Tocados pelo rumor do rio, os moradores da Quinta do Fidalgo buscam nostálgicas lembranças do mar.
Levantando-se do imenso banco de peroba rosa lavrada a machado onde descansava a cabeça nas pernas do companheiro, Esmeralda surpreende o marido:
– Fernão meu marido, estou pensando em realizar alguns procedimentos estéticos.
– Que merda é essa, Esmeralda?
– Calma, seu grosseirão! Só estou dizendo que gostaria de corrigir algumas imperfeições que percebo em meu corpo.
– Que imperfeições são estas que eu não vejo? Quando te desejo, não me apego a detalhes. Quero somente ter a mulher inteira que me deseja.
– São pequenos detalhes, uma gordurinha a mais na barriga, uma clara assimetria nos seios e talvez um bumbum mais arrebitado.
– Meu Deus! Eu amo tuas imperfeições. Elas são humanas.
– Para mim, contribuiriam para elevar a autoestima. E acredito que aumentariam seu interesse por mim.
– Acabei de dizer que te amo assim como és. Você acredita que simulacros ridiculamente simétricos de silicone substituem teus seios verdadeiros ligeiramente pendidos ou assimétricos, mas seus?
– É assim que sentes, meu amor?
– E tem mais. Teu belo traseiro expressa na riqueza do volume e leveza da forma uma sensualidade que eu jamais trocaria por modelos padronizados. Previsíveis. Geométricos.
– Mas, as gordurinhas da barriga? Não tiram tua excitação?
– Não seja ridícula. Esqueça toda esta bobagem. O que são para mim barrigas lipoaspiradas e definidas? O que conta é o calor de teu ventre que me acolhe com generosidade. Vem.
Sacudidos por intenso desejo, se entregam, embalados pelas águas do rio, ao ritual do amor impulsionado não pelos corpos, mas pelas palavras e sentimentos despertados.
Ainda ofegante, Esmeralda, recolhe as peças de roupa espalhadas pela alcova e se dirige ao amante que repousa inerte.
-Fernão, depois desta vou pensar melhor. Por você, amor.
– É por isso. É para que cada mulher continue sendo uma experiência única que te imploro: permaneças assim imperfeita e misteriosa.
– Agora que estás em paz, vou pedir-te uma coisa. Não execute o Zezé. Perdoe.
Nota do Autor:
Para mim é um dos episódios mais insólitos de nossa história. Penso que frustrado pelo fracasso nas buscas pelas esmeraldas, o bandeirante Fernão, num acesso de ira, ordenou a execução do próprio filho, José Dias Pais.
Agora, a ficção oferece-te a chance de te redimires. Cheio de amor como estás, reconciliado com a Esmeralda, nesta bela noite de verão, perdoa o Zezé.
Mas, apesar de tudo, não perdoou.
* João de Deus Costa é nascido na fazenda da Cachoeirinha, em Pedro Leopoldo, pelas mãos da parteira e mãe preta Maria Esteva, em 11 de outubro de 1950. É um quase-historiador, quase-cozinheiro e agora pretende ser um escritor por inteiro. Já morou no norte e no sul, mas é absolutamente mineiro. Tem duas filhas, quatro netos e incontáveis plantas – é acima de tudo um jardineiro.



