Até que enfim uma boa notícia vinda de Pedro Leopoldo!

Até que enfim uma boa notícia vinda de Pedro Leopoldo!

A notícia: o vice-governador de Minas, Mateus Simões, o senador do Ceará, Eduardo Girão, o chefe de gabinete do prefeito Emiliano, o Hugor, e o presidente da Câmara Municipal Rafael Faria bateram um papo mediado por Célia Diniz, presidente do Centro Espírita Luiz Gonzaga.

Rafa, como é respeitosamente conhecido, pois, naquela cidade, o apelido, às vezes, importa mais que nome, declarou, in verbis:

“Quem sabe, com a união de todos, do senador Girão, do vice-governador, a gente não consegue trazer a área da Fazenda Modelo, onde o Chico trabalhou, para o município”.

Pelos faveiros de Wilson!

Há anos tenho apregoado essa ideia a meus amigos e amigas, conterrâneos créme de la créme da intelligentsia pedro-leopoldense, que respondem com uma cara de paisagem que mal encobre a absoluta falta de entusiasmo sobre a ideia. (Nota do Tradutor: a expressão francesa antecipa o assunto rural, já que remete a leite – nata-creme-vaca-fazenda).

João 14-10.

Escrever sobre a Fazenda Modelo, para mim, não é apenas comentar uma notícia ou falar de política. É passear na infância, falar de meu pai, que também trabalhou lá até se aposentar. E, naquelas alamedas sombreadas, talvez cair e ralar os joelhos.

Mas, vamos lá.

Em primeiro lugar, eu também sou do mato, como o pato e o leão.

Eu sei que 1) literatura não é para jornais e que 2) política não é assim tão fácil.

Mas literatura se escreve onde, se cada vez menos pessoas leem livros? Jornais existem onde, se a internet banalizou a mediocridade instantânea de quem e para quem quiser – quem quiser cancelar, cancele Humberto Eco:

“As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho e não causavam nenhum mal para a coletividade. Nós os fazíamos calar imediatamente, enquanto hoje eles têm o mesmo direito de palavra do que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis.”

Política onde se faz, se no Congresso vemos parlamentares falando para os celulares, fazendo selfs e vídeos ao invés de debatendo ideias? (Numa época em que mal havia sido inventada a televisão, Walter Benjamin, o filósofo da Escola de Frankfurt, disse algo como: “no futuro os políticos falarão para a câmara (de televisão) e não para a câmara (o parlamento)”.  Apesar de tanta premonição, ele nem sonhava que, umas seis décadas depois, Lúcifer terminaria de cozinhar em seu caldeirão, nas profundas dos infernos, o aparelho celular).

E notícia, é o que? Quem escolhe o que é ou não notícia? Christoph Türcke, em “Sociedade Excitada” (recomendo), estendendo a linha de “Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord (1967), e numa vibe semelhante, mas não idêntica, à de Hartmut Rosa e Byung-Chul Han  (“Alienação e Aceleração” e “Sociedade do Cansaço”, respectivamente), se compreendi bem, afirma que, simplesmente, não existe mais algo que se possa chamar de notícia.

A mídia, que, sem trocadilhos, é plural do latim médium, ou meio, por isso em Portugal se diz “os média”) há muito tempo não media mais nada. Segundo o filósofo contemporâneo alemão (e não é IA, li e tenho o livro aqui) notícias não são mais escolhidas pelo critério de relevância social, mas pelo potencial de excitação (sensorial), impacto emocional e rapidez de consumo.

Mídia e jornalistas escolhem aquilo que captura atenção, provoca reação e se encaixa no fluxo rápido, o público reforça o ciclo em compartilhamentos, curtidas ou comentários e os algoritmos e plataformas digitais amplificam a seleção automática por engajamento e intensidade. O jornalismo (a imprensa) perdeu seu papel público de mediação crítica.

Sorry Bianca, é preciso amar o tempo em que se vive (o único, a não ser que haja reencarnação, que eu dispenso porque se já é difícil morrer uma vez, quanto mais várias).

2) Política é como nuvens. É a arte do possível. Etc.

Sei muito bem que a prefeitura de Belo Horizonte custou uns 40 anos para conseguir municipalizar o Anel Rodoviário, o que só aconteceu neste ano. Quantos mortos devemos contabilizar por isso?

Sei também que em 2025 cada deputado federal teve R$ 37.275.986 para emendas parlamentares individuais e cada senador 68.519.716.

Sei também que a vida acontece no município, não em Brasília, e que do vereador ao presidente, tudo se resume a alianças e votos.

Sei também que a UFMG utiliza a Fazenda desde 1993; que em 2019 houve a cessão de 419 hectares para a universidade e que em março de 2025 a UFMG e a UEM (União Espírita Mineira) firmaram acordo de cooperação para revitalização da Fazenda Modelo.

E onde anda o município? Talvez, como diz uma amiga de língua ferina, antes de municipalizar a Fazenda Modelo, talvez seja preciso municipalizar o município de Pedro Leopoldo.

Não há previsão de quando será reaberta ao público e, quando for, será diferente dos nossos tempos de menino e eu era fazendeiro do ar.

Assim como as almas no Anel Rodoviário, quantas gerações, quantas crianças, quantos meninos, meninas, mães, pais, bebês, quanta gente não pôde desfrutar da Fazenda Modelo? Quantas caminhadas, quantos piqueniques, quantas bicicletas deram com a cara na porteira?

Algum fenômeno paranormal tem acontecido quando me ponho a escrever sobre Pedro Leopoldo (quase sempre a pedido de amigos): vem me assombrar o poeta Carlos Drummond de Andrade.  Pois lembrarei meu pai, aposentado da Fazenda Modelo, morto e enterrado em Pedro Leopoldo

No livro Fazendeiro do Ar, em “Cemitérios”, o poeta diz: “Do lado esquerdo carrego meus mortos, por isso caminho um pouco de banda”.

Com meu pai, aprendi o Poder do Silêncio. Todas as ressonâncias profundas e harmoniosas do Silêncio. Era vigia na Fazenda Modelo, mas me lembro que plantava arroz, tinha horta, cavalariças, bois, vacas, porcos Duroc…longe de mim um inventário de lembranças. Tratores, qual criança não é fascinada por tratores?

Podíamos circular à vontade na Fazenda Modelo, os moleques, eu, Marcinho, hoje Márcio Barbosa, meus amigos da Olaria, Zé João, Jorge, havia a Lagoa Preta e a Lagoa Proibida, esta porque nela não se podia pescar, mas, na outra sim, e pescávamos, carás, piabas. Devo confessar que uma vez, só uma vez, expropriei espigas de milho verde no milharal imenso que plantaram perto lá de casa, para assar.

Era fascinante ver as vacas sendo conduzidas a um tanque cheio de um liquido verde, um carrapaticida. Elas eram obrigadas a mergulhar completamente lá dentro e saíam assustadas.

Nada tenho contra fazendeiros, eu que sou fazendeiro do ar. Já até fui fã de uma vaca, e não entendam mal, não sou hinduísta. Era a Conquista, campeã de litros de leite na Exposição, que deu nome aos Entrelagos, de onde ouvia o som da música dos bailes que eu sonhava frequentar e, quando pude, descobri que não sabia dançar nem conversar com as moças.

E eles davam o leite de graça, gelado, para nós, os pivetes. Meu pai, como funcionário, tinha leite e manteiga de graça ou subsidiados, não sei, a gente ia buscar com a leiteira na mão, eu e Márcio, quando ele estava em Pedro Leopoldo. Leiteira, para quem só conhece leite em caixinha, é uma vasilha de alumínio. Foi assim que jamais aceitei comer margarina.

Quanto à notícia, é boa, mas não estamos falando em doação. Pelo menos cogestão e um parque que as pessoas possam frequentar e aproveitar, em vez do “campus sustentável” dentro da torre de marfim da UFMG e o turismo espírita.

Em tempo: minha mãe chamava o lugar onde morávamos (numa casa cedida pela Fazenda Modelo) de Olaria. Não me lembro de nenhuma olaria ali, desde que nasci. Mas, talvez por isso, teimoso como uma mula, eu ainda acredite no poder das palavras, da arte e da poesia:

A  PALAVRA É ARGILA SELVAGEM

que se molda em gesso e barro

ferro e aço

sangue e luta

em grandes barras de vida.

E O HOMEM É ANIMAL DE CARGA

como o boi da arado

ou a mula oleira

de cujos passos se constrói o mundo

mesmo que ela ande em círculos

pela vida inteira.

Se minha cidade natal fosse uma fazenda nos ares e eu o fazendeiro do ar, iria conduzi-la com o aboio mais triste que existisse, ao tanque onde ela mergulharia e de onde sairia renovada, renascida, e nunca mais teria carrapatos a lhe sugar o sangue.

 

Belo Horizonte, 27 de novembro de 2025

 

 

Alan Freitas Passos

Médico-psiquiatra, psiquiatra forense, médico-legista ( RTD). Escreve de vez em quando

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