Aos 80 anos, o engenheiro mineiro Carlos Fabiano Peixoto de Brito transforma histórias de sustos e livramentos de toda uma vida em livro sobre proteção e destino
Há orações que atravessam gerações e permanecem guardadas na memória afetiva, principalmente para quem cresceu no século XX. Entre elas, uma das mais conhecidas é a oração ao anjo da guarda — aquela que muitas crianças aprenderam ainda pequenas: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina…”
Para muitos que aprenderam a recitá-la, a prece era um gesto simples de proteção ensinado pelos pais ou avós, mas, para o engenheiro mineiro Carlos Fabiano Peixoto de Brito, essa ideia de um protetor invisível acabou se transformando em fio condutor de uma história de vida inteira.
É justamente essa trajetória que está reunida no livro “Meu zeloso guardador”, obra em que, ao completar 80 anos, Fabiano revisita lembranças, afetos e desafios profissionais, enquanto enumera as várias ocasiões em que acredita ter sido socorrido por esse guardião invisível – o seu anjo da guarda.
Curiosamente, o autor não se define como um homem religioso. Agnóstico, ele admite não seguir regras ou dogmas, mas reconhece que há acontecimentos na vida difíceis de explicar apenas pela lógica. Para ele, tais episódios podem ser atribuídos a uma força extraordinária, como as ações dos anjos descritos nos relatos bíblicos.
Segundo Fabiano, a origem dessa percepção remonta à infância. “Desde menino, minha mãe, Anacirema Peixoto de Brito, insistia para que eu rezasse a oração ao anjo da guarda, convencida de que havia um protetor espiritual acompanhando meus passos”, lembra o escritor.

Ainda na juventude, Fabiano soube por intermédio da mãe da história de um religioso português conhecido como Frei Fabiano, que viveu no Rio de Janeiro, no convento de São Francisco. Tornara-se conhecido por relatos de milagres, especialmente na recuperação de enfermos, depois de se dedicar ao trabalho como enfermeiro.
“A devoção da minha mãe a este franciscano era tamanha que, além de me batizar com seu nome, praticamente me obrigava a visitar o convento de São Francisco todas as vezes que íamos ao Rio de Janeiro, para conhecer a ala do ex-votos, peças de gesso ou similares que simbolizavam todas as graças que seus fiéis alcançavam”, conta o autor.
Essas experiências, somadas às circunstâncias curiosas que testemunhou ao longo da vida, levaram Fabiano a refletir sobre a possibilidade de existir uma força que o livrava de situações perigosas ou potencialmente trágicas. No livro, ele prefere chamar esses episódios de “milagres”, embora reconheça que poderiam ser também simples “livramentos”, na forma de acontecimentos reais que, acreditando-se neles ou não, marcaram profundamente sua trajetória.
A narrativa começa já em seu nascimento. Sua mãe decidiu deixar o Rio de Janeiro, cidade com muito mais recursos médicos, para dar à luz em Salto da Divisa, pequena cidade mineira na divisa com a Bahia. A escolha parecia arriscada, mas o parto terminou de forma exemplar. O próprio autor descreve o episódio com humor e gratidão: “o “zeloso guardador” estreou ali em minha vida, transformando uma possível tragédia em um sucesso da obstetrícia, com o nascimento de um menino saudável, de quase quatro quilos”, relata.
A partir daí, as intervenções do suposto protetor se repetiriam em diferentes momentos da vida. Ainda criança, em São Paulo, Fabiano sobreviveu a um episódio inusitado ao ingerir os palitos de uma caixa de fósforos. Em outra ocasião, na cidade onde nasceu, arriscou-se a atravessar o rio Jequitinhonha nadando, um percurso de cerca de duzentos metros.
No meio da travessia, a força da correnteza venceu seu fôlego e, no livro, ele relata que, já inconsciente e sendo levado pelas águas, acabou sendo empurrado até a margem quilômetros adiante. Episódio que atribui, mais uma vez, à intervenção de seu “zeloso guardador”.
Os relatos seguem pela juventude e pela vida adulta, sempre misturando perigo e alívio. O anjo da guarda, segundo Fabiano, também esteve presente quando seu carro “morreu” à noite perto do temido Viaduto das Almas, na antiga BR-3, e ele inesperadamente encontrou um mecânico. Ou quando o Opala que dirigia teve dois pneus furados e a bobina queimada no meio da noite, na avenida Brasil, uma das regiões mais movimentadas e perigosas do Rio de Janeiro e, como tal, do país.
As viagens, no Brasil e no exterior, também renderam histórias marcantes. Em uma pequena cidade dos Estados Unidos, ele perdeu-se da esposa, Maria Aparecida, a Cida, em uma situação que parecia impossível de resolver. Em Porto Seguro, na Bahia, quase caiu de uma ponte após perder o controle de uma motocicleta durante uma viagem rumo a Trancoso. Já em Istambul, na Turquia, o casal se perdeu à noite, sem saber o nome ou o endereço do hotel onde estavam hospedados.
Entre aventuras e sustos, o livro também registra momentos difíceis ligados à saúde, tanto sua quanto de sua esposa. Fabiano relata o enfrentamento de um câncer e de uma arritmia cardíaca que exigiu a implantação de um marcapasso, além de vários AVCs sofridos por Cida – desafios que, segundo ele, também terminaram superados graças à intervenção de seu guardião invisível.
Engenheiro civil formado em 1968 pela Escola de Engenharia da UFMG, Fabiano exerceu a profissão por mais de cinco décadas, aposentando-se apenas em 2025, depois de passar por empresas como Seitec, MRV e SAS. Natural de Salto da Divisa, viveu parte da infância entre Minas Gerais e São Paulo antes de fixar residência em Belo Horizonte, onde construiu sua carreira e criou sua família.
A ideia de escrever “Meu zeloso guardador” nasceu justamente da vontade de registrar esses acontecimentos curiosos. Muitos deles estavam anotados em agendas desde o início de sua vida profissional, funcionando quase como um diário. O autor teve o cuidado de pesquisar e conferir cada episódio, buscando reconstruí-los com fidelidade, antes de compartilhá-los em livro com amigos, conhecidos e possíveis leitores.
O resultado é um livro de memórias marcado por leveza, humor e reflexão. Um dos leitores, Darnon Alves de Medeiros, colega engenheiro que se tornou importante nome na consultoria de negócios, resumiu a experiência com entusiasmo. Disse ter ficado impressionado com a beleza da narrativa e com a simplicidade do autor, destacando que, por isso, a obra é mais do que boa: “é sensacional!”, elogiou Medeiros, autor do livro “O poder do 1%”.
Entre coincidências, riscos e reencontros improváveis, “Meu zeloso guardador” convida o leitor a revisitar uma pergunta antiga: até que ponto certos acontecimentos da vida são apenas acaso, ou sinais de que alguém, ou algo, está sempre por perto, cuidando para que nada de mal aconteça?
(Para quem se interessar em ler, o livro está à venda na Livraria da Rua, em Belo Horizonte ou pode ser adquirido diretamente com o autor, pelo email cfabianobrito@yahoo.com.br)



