Um artigo de Alan Passos #
Não sei quem é André Santos. Li seu texto publicado no AQUI PL: enxuto, agradável, bem-humorado e em português escorreito, coisa hoje meio rara. Pela foto, vi alguém que parece gostar de automobilismo, kart ou coisa parecida. Só sei que é funcionário público. Li também o texto que inspirou o dele.
Trata-se de uma das coisas em linguagem escrita entre as mais torpes e repugnantes que já passaram sob meus olhos de leitor, não voraz, caro André Santos. Voracíssimo. Talvez mais que você, porque desde que alfabetizado pelas mãos e vara de marmelo de Dona Anete, li tudo que me caiu nas mãos.
Histórias em quadrinhos todas, Superman, Batman e Robin, Sobrinhos do Capitão, Gasparzinho, Brasinha, tudo de Walt Disney (na verdade, chorei quando ele morreu em dezembro de 1966, aos meus 10 anos de idade). Eu lia até bula de remédio.
Livros com histórias da então candente Segunda Guerra Mundial. Livros bobos e Moby Dick, Dom Quixote, Tom Jones, Huckleberry Finn…E isso não parou até hoje. E ça va sans dire, o imprescindível Carlos Zéfiro, educador sexual de toda uma geração.
Dizem que, no ginásio, a professora pediu que os alunos escrevessem sobre Jesus Cristo e Assis Chateaubriand perguntou: a senhora quer a favor ou contra? Longe de mim comparar o grande Chatô, na arte de defender o indefensável, com a artimanha de que aqui se trata.
Ele não morava numa ex-oligarquia rural provinciana, “uma cidade conservadora, preconceituosa, iletrada, excessivamente “pragmática” – no pior sentido da palavra. Que continua apostando todas as suas fichas na indústria low tech e nos serviços tradicionais, como demonstrou a recente polêmica em torno da instalação da cervejaria Heineken na cidade” (Marcos Lobato em “Arte & Cultura em Pedro Leopoldo, Duarte, E., Silva G. e Domingues, I. Editora Tavares, Pedro Leopoldo, 2025, página 195).
Ah, Lobato, e você nem sabia ainda do caso destilaria x mineradora… Ah, André Santos, eu não era obrigado a ler, mas li. Se o autor daquela teratologia souber o que é sofística, a praticou, mas da pior qualidade.
A propósito, cursei um ano de graduação e, depois, o mestrado em Filosofia na Fafich da UFMG. Aprendi que não se deve ser escolástico. Ser escolástico significa rebater os argumentos do outro com a mesma linha argumentativa e as mesmas premissas lógicas. Se o argumento for estúpido, você também será, se responder na mesma linha.
E talvez tenha sido a argumentação mais estúpida que vi ousar tornar-se em letra de forma desde não sei quando. A começar com a chamativa manchete sobre fundo laranja e seu infame trocadilho, que busca com malícia rasa relacionar o fabricante do melhor uísque produzido em solo nacional ao escândalo do metanol.
Afinal, que língua ferina a destilar veneno ousaria aproximar a falsificação criminosa de bebidas contaminadas por um tóxico poderoso com o negócio honesto e milenar das destilarias, onde o produto, no caso do uísque, leva 6, 8, 12, 18, 21 anos ou mais para ser colocado no mercado?
Mas a parvoíce continua, e só piora. Mineração ou álcool? Indaga sem pudor o uber das letras. E se fosse destruição irreversível do meio ambiente, esgotamento dos recursos do subsolo, economia anacrônica extrativista versus um empreendimento limpo e sustentável? Haja paciência!
Os sofismas seguem pelas mesmas linhas tortas, equiparando a produção de bebidas ao alcoolismo. Aí já extrapolou, mas vamos lá, escolasticamente. Já pensou em fechar a Gráfica Tavares se ela começar a imprimir baralhos?
Sabe a história da mineração Ouro Velho em Nova Lima? Da Barragem do Córrego do Feijão em Brumadinho? Da tragédia (há quem diga crime) de Mariana, que destruiu o Rio Doce desde onde ele se chama Rio Piranga até contaminar o Oceano Atlântico? Os “estados mineradores” estão felizes com os royalties que recebem?
O surgimento de leis, da autoridade do Estado e da religião são tradicionalmente apontados como vetores do processo civilizatório. Mas um elemento foi incluído recentemente nessa lista: as bebidas alcoólicas. Essa é a tese central do livro “Drunk – How We Sipped, Danced, and Stumbled Our Way to Civilization” (em tradução livre: Bêbados – Como bebemos, dançamos e tropeçamos em nosso caminho rumo à civilização), escrito pelo filósofo americano Edward Slingerland.
Ele argumenta que o consumo de álcool foi uma ferramenta civilizatória fundamental ao permitir a colaboração de “primatas egoístas e desconfiados” em grandes grupos por meio da formação de laços sociais. As bebidas alcoólicas aumentaram a criatividade de homem, quebraram barreiras, despertaram sentimentos de filiação e facilitaram a resolução de dilemas de cooperação. Assim, tornaram-se uma peça central da evolução humana.” (Publicado em Folha de São Paulo).
Poeta Carlos Drummond de Andrade:
“Quantas toneladas exportamos
De ferro? Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro? (Lira Itabirana).
“Cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê.” (Alguma Poesia).
Talvez o poeta maior me permitisse profanar seus versos, e, em lugar de Belo Horizonte, pudesse eu inscrever o nome da cidade onde nasci.
Por que não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia
e continua, branda: Volta lá.
Anda! Volta lá, volta já.
E eu respondo, carrancudo: Não.
Não voltarei para ver o que não merece ser visto,
o que merece ser esquecido, se revogado não pode ser.
Lá o imenso azul desenha ainda as mensagens
de esperança nos homens pacificados – os doces mineiros
que teimam em existir no caos e no tráfico.
Em vão tento a escalada.
Proibido escalar. Proibido sentir o ar de liberdade destes cimos,
proibido viver a selvagem intimidade destas pedras
que se vão desfazendo em forma de dinheiro.
Desfaz-se, com o minério,
uma antiga aliança, um rito da cidade.
“Olhei para a terra, e eis que estava vazia,
sem nada nada nada.”
Sossega, minha saudade. Não me cicies outra vez
o impróprio convite.
Não quero mais, não quero ver-te,
meu Triste Horizonte e destroçado amor.
(Triste Horizonte, 1978. A citação bíblica é de Jeremias. O poeta e o povo fizeram nascer o Parque da Serra do Curral. Ainda se luta para que as mineradoras parem de corroê-la de pouco em pouco).



