Um texto de Alan Passos
O pedido da jornalista me atira no túnel do tempo: espiral de lembranças inevitáveis que ilumina a cena povoada de carteiras de madeira, lápis número dois, borracha Mercur, caneta Bic (só no ginásio, no grupo escolar não) e a professora, ou professor, a anunciar o Para Casa: composição. Tema: Dia dos Pais. Meninos de calças curtas e meninas de saia plissada. Todo ano, Dia das Mães, dos Pais, Natal, férias, uma viagem. Sempre a mesma coisa. E tinha que fazer, como os pobres repórteres televisivos a repetir os mesmos assuntos, ano a ano: engarrafamento no feriadão, rodoviária lotada, compras no Dia dos Namorados etc.
Em meados do século passado, dizia-se “composição” e não “redação.”
Pra não levar um zero e quem sabe ganhar a efígie de um santinho (pois, queiramos ou não, naqueles anos somos todos católicos apostólicos romanos) há que cumprir a tarefa, e sem ChatGPT.
Domingo, 10 de agosto de 2025, é Dia dos Pais. Ninguém perde mais tempo em dizer que são datas inventadas pelo comércio… a gente simplesmente curte esses dias especiais e os comemora.
Pai já foi herói, patrão, feitor, disciplinador severo, ideal distante e mudo, amigo incondicional, provedor, senhor do NÃO. Cada um tem o seu, porque, como diz Arnaldo Antunes, todo mundo já foi neném, até Hitler e Sadam Hussein. Engraçado que as chineladas eram da mãe, porque pai, bastava olhar que você punha o rabo entre as pernas e se comportava.
Hoje, tudo mudou, menos uma coisa. Tudo muda, só não muda o fato de que tudo muda.
Pai hoje pode ser uma mulher trans, um casal homoafetivo com um filho adotivo, os que não querem filho de jeito nenhum e chamam os pets de filhos, e os jovens que evitam o NÃO em troca de convencer o rebento, com argumentos adultos, a “desfraldar”, ou seja, parar de fazer cocô e xixi nas calças. Ou a velha versão tradicional (raríssima, presente em versão vintage nos avôs que contam com a inestimável vantagem de poderem deseducar os filhos dos outros).
Só uma coisa permanece. Um dos nomes de Deus em hebraico é Abba, que significa Pai, mas de jeito carinhoso. Como papai, o daddy do inglês.
Portanto, Deus é Pai. Ora, Deus é Amor.
Então, só é possível haver pai se houver amor. Enquanto a mãe, ou alguma mulher, alguma vez carregou o bebê no ventre e é, pela biologia, inextrincavelmente ligada ao filho (ou filha), as dores de parto do pai foram outras.
Todo pai é pai adotivo.





