Eu sou obrigado a ler muita coisa ruim…

Eu sou obrigado a ler muita coisa ruim…

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Um artigo (muito bom) de André Santos

Eu leio mais bobagens do que a prudência recomenda. Já fui um consumidor de MAD, Contigo, Amiga, Chiclete com Banana, Playboy (sim, existe texto entre uma pelada e outra), e que os deuses me perdoem pela insensatez, eu já fui leitor da Veja. Assumir isso é uma indignidade, mas enfim, eram outros tempos. O fato é que eu sou um leitor onívoro, eu leio de tudo. E, evidentemente, leio muita bobagem.

Aí o destino, sempre ele, me faz encontrar pelos descaminhos da vida uma pérola, dessas coisas que com certeza iriam pra minha lista de 100 coisas pra morrer antes de ler, e eu teria falhado miseravelmente, porque o cara que me deu a peça pra ler diz que é meu amigo, e eu acreditava.

Amigo de verdade não faz isso, gente.

O cara me “brindou” com um texto que fazia uma comparação do tipo “mineração é bom, bebida alcoólica é ruim”. A ideia nada disfarçada por trás do troço era influenciar a comunidade com uma opinião positiva sobre a história da mineradora local, que quer acabar com os planos de implantação de uma fábrica de bebidas no município. Parece que acreditam piamente que só eles podem explorar a área, algo assim.

E foi nessas que eu li a tal opinião. Li, li de novo a fim de me certificar de que era real, e cheguei a conclusão de que, em pleno 2025, tem quem acredite que é impossível ser melhor. Como, cargas d’água, em pleno 2025, ano em que deveríamos estar comemorando avanços científicos, sociais e culturais, ainda estamos tentando explicar pra uns e outros que a Terra não é plana, que vacinas salvam vidas e – pasmem – que porque a cidade teve atividade mineradora em sua história, não é obrigada a viver disso pra sempre.

Estamos em 2025. Já falei isso antes nesse mesmo texto, às vezes para enfatizar e às vezes para eu mesmo não me esquecer, porque tem gente que acha que ainda estamos na idade das trevas. Vamos viver pra “sempre” endeusando uma mineradora que enriquece bem poucos, emprega poucos e condena muito? Porque o estrago da mineração não se conserta de um dia pra outro, e o que mais temos visto é não consertar nunca!

E haja aspas no “sempre”, porque minério acaba…

Mas, bom coração que tenho e bom humor que tento, cá estou a tentar ver o mundo pelas embaçadas lentes de quem tenta fazer essa correlação “Tiririca” entre álcool e minério. Pela mesma ótica, devíamos abolir os automóveis! O Brasil perde mais de 50 mil vidas por ano em acidentes de trânsito e a solução é acabar com os carros?

Talvez devêssemos, quem sabe, colocar na capa da Bíblia uma tarja amarela, igual maço de cigarros, dizendo “olha, tem um cara aqui fazendo vinho, mas vinho faz mal, então não vai na dele não, hein”. Como diz o meu amigo, “fecha a Ambev”, e vamos todos viver das mesmas matrizes econômicas de um passado cada vez mais distante e ineficiente. Vamos todos bater palmas pra mineradora lascando o ambiente, enquanto o resto do mundo anda pra frente! Não precisaríamos mais de carros nem de bebidas, olha só! Tirando os dois da equação, a gente vai viver num paraíso fofinho, cercados de leões e ovelhas, todos em perfeita harmonia!

Não podemos matar a vaca pra acabar com o carrapato. Porque o trânsito é perigoso, vamos tirar os carros de todos os motoristas? Vamos abrir mão dos empregos que o carro gera? Bebidas são fabricadas e vendidas no mundo todo, carros também. E aí?

O fato é que uma destilaria, um centro de distribuição e tantos outros negócios modernos, alinhados com aquela coisinha linda chamada progresso, são o que vai tirar nossa cidade da pasmaceira econômica na qual estamos faz tempo! Precisamos de empregos, de qualificação acessível, queremos uma cidade economicamente viva, moderna, inteligente, pra que não viremos só mais um bairro de BH onde as pessoas vão pra dormir e olhe lá!

Que venha o futuro, que venham novos e melhores empregos, porque ninguém vai preferir pá e picareta se puder escolher papel e caneta. É pra frente que o mundo anda, ou pelo menos deveria ser.

André Santos

André Santos é funcionário público

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