Justiça suspende audiência pública na Câmara. Não tinha povo pra debater o Parque do Sobrado

Justiça suspende audiência pública na Câmara. Não tinha povo pra debater o Parque do Sobrado

O site AQUI PL tem reiterado a importância de preservar a natureza e proteger o meio ambiente como caminho para a retomada da economia, dos empregos, da renda – afinal o verde vale muito dinheiro.

Em franca oposição a esse conceito de crescimento sustentável, a Câmara de Pedro Leopoldo tentou realizar nesta quinta-feira uma audiência pública, em que muita gente viu sinais de uma passada de boiada, expressão celebrizada pelo ministro Ricardo Sales naquela famosa reunião ministerial.

No nosso caso, a audiência faz parte da aprovação de um projeto de lei do prefeito Marião, que procura flexibilizar a ocupação da chamada zona de amortecimento, a área no entorno do Parque Serra do Sobrado, situado entre Dr. Lund e as “Duas pontes” que abriga 16 nascentes. A prefeitura alega que a criação do parque, há dez anos, desrespeita o plano diretor do município, que definiu a região de Dr. Lund como de expansão urbana.

Na pauta estão também, é claro, os interesses dos donos de terrenos, que querem implantar ali loteamentos ou distritos industriais. É bom lembrar que um plano de manejo para a área, que tem que ser feito, não vai impedir este tipo de empreendimento. Mas não pode ser de qualquer jeito – tem que ter licenciamento, estudos, medidas atenuantes e compensações para o empreendedor diminuir impactos sobre a unidade de conservação. Fica mais caro, mas, não se esqueçam que agregar valor à área também quer dizer valorizar os empreendimentos e o trabalho da comunidade ao redor.

Há muito o que se discutir nas etapas de aprovação do projeto. Na falta do plano de manejo, o que vale para a zona de amortecimento é uma distância de três quilômetros do parque que, ali, se iniciam na chamada Vila Brasilina, na subida para o Sobrado. O parque, na verdade, está em São João da Lapa, mas o entorno – e os três quilômetros – chegam em Pedro Leopoldo e a várias propriedades locais, o que pode ter amedrontado alguns donos de terras.

O caso é que o plano de manejo, que está sendo contratado através do Fundo Hidroambiental, aquele recurso que a gente paga na conta de água, em parceria do Subcomitê do Ribeirão da Mata com o IEF, pode até reduzir esses três quilômetros, indo ao encontro do plano diretor, que define essa área como de uso misto e baixa ocupação.

“Com o objetivo de proteger mananciais e uma rica biodiversidade, um parque não termina em suas cercas. Para além existe uma área de amortecimento com regras que diminuem os impactos sobre ele. Hoje é de três quilômetros e, depois do plano de manejo em contratação, o perímetro definido tecnicamente, pode conciliar atributos da conservação e minimização de impactos, ou seja, pode ser zero ou se estender por mais de três quilômetros”, explica Rogério Tavares, ex-diretor do Parque do Sumidouro.

O problema neste momento é o formato da audiência, que como o próprio nome diz, deveria ser pública. E que é justamente o que ela não seria. Afinal, a Câmara, alegando que o projeto está lá desde junho passado travando a pauta, marcou a reunião no apagar das luzes da legislatura, em plena pandemia e sem a população, em especial os ativistas pelo meio ambiente. Que urgência é essa?

Diante da falta de transparência do Legislativo, é aí que a democracia funciona, promovendo o equilíbrio dos poderes. Atendendo a entidades ambientais e ao Ministério Público, que representa a população, a Justiça cancelou a audiência pública, através de mandado de segurança. Mas não suspendeu a tramitação do projeto. Só disse uma coisa que está na cara: o modelo virtual proposto pela Câmara, através do Facebook, não garante a participação dos maiores interessados, ou seja, a população. Seria uma audiência sem debate, sem réplica, um evento de mão única. Enfim, seria apenas mais uma laive.

Bianca Alves

Criadora e editora do projeto AQUI PL, é formada em Comunicação Social pela UFMG e trabalhou em publicações como os jornais O Tempo, Pampulha, O Globo; revistas Isto é, Fato Relevante, Sebrae, Mercado Comum e site Os Novos Inconfidentes

ARTIGOS RELACIONADOS

Sonho de três décadas, Via Norte é entregue à população

Sonho de três décadas, Via Norte é entregue à população

Desde que foi idealizada pelo prefeito Ademir Gonçalves, no final da década de 1990, o projeto da Via Norte passou por várias administrações em quase 30 anos até ser entregue

LEIA MAIS
De olho no futuro, Pedro Leopoldo lança Programa de Planejamento Territorial

De olho no futuro, Pedro Leopoldo lança Programa de Planejamento Territorial

O município de Pedro Leopoldo deu um passo estratégico rumo ao desenvolvimento urbano planejado ao lançar oficialmente o Programa de Planejamento Territorial, iniciativa que vai orientar o crescimento da cidade

LEIA MAIS