Meu pai e eu: nós que amávamos Pedro Leopoldo

Meu pai e eu: nós que amávamos Pedro Leopoldo

João de Nini e sua amada cidade

O Dia dos Pais é um dia bom para escrever sobre meu pai – o que também significa resgatar, nas minhas lembranças de filha, o que tivemos em comum, a escolher: uma arraigada teimosia, um incorrigível otimismo, o Clube Atlético Mineiro ou o inegável amor pela cidade em que nascemos. Mas também assomam os melhores momentos que passamos juntos. Uma noite em especial aparece no horizonte e é com genuíno prazer que me ponho a lembrá-la.

Em algum momento da segunda metade da década de 1990, o Palácio das Artes pegou fogo, desastre que ensejou uma completa reforma da melhor sala de espetáculos de Minas. Fechada durante alguns meses, foi finalmente reinaugurada em julho de 1998, logo depois do Brasil perder a Copa para a França, em grande parte devido a um piripaque do Ronaldo Fenômeno, ainda não devidamente explicado ao torcedor brasileiro.

Ganhei convites para a inauguração, uma noite de gala para a qual chamei meu pai, João de Nini, para me acompanhar. Homem do mundo, que trabalhou abrindo estradas pelo país – inclusive a Juiz de Fora-Rio, quando conheceu minha mãe Carminha em Vassouras – papai tocou uma centena de negócios tais como fábrica de linguiça e oficina mecânica até se estabelecer com uma pequena empreiteira de asfalto. Isso depois de ser um modesto secretário de obras em várias administrações do emblemático Cecé, prefeito que marcou a história pedro-leopoldense.

Com tal trajetória, não era um homem afeito a eventos sofisticados como aquele, coalhado de políticos e empresários poderosos, com direito a apresentação do balé Corpo e fino coquetel no foyer do Palácio. Mas não fez feio: naturalmente encantador, papai vestiu seu melhor terno e gravata, cortou os cabelos destacando o rosto bronzeado pela labuta nas estradas e se tornou o melhor acompanhante que uma jovem senhora como eu, então com 40 anos, poderia ter.

Divertimo-nos imensamente. Ele ficou encantado com a malemolência do corpo de dança, que não conhecia e passou a admirar, e se impressionou com os discursos de ministro e governador. Apresentei-o àquele mundo da cultura e do jornalismo, com o qual tinha certa intimidade e ele, bem-humorado, disse a um divertido Helvécio Guimarães, ator e diretor, que era seu fã desde o cine-teatro Lourdes, na TV Itacolomi.

Helvécio, eternamente desaforado, respondeu: “pois eu sou fã da sua filha”. Ao que João de Nini retorquiu: “não mais do que eu”.

Eu e João de Nini, meu pai.

Ao sairmos do Palácio das Artes, perguntei a ele o que gostaria de ver na Belo Horizonte de sua juventude: quis tomar um café no Palhares, que naquela época ainda funcionava à noite. Dito e feito, curtimos sabores e lembranças no balcão do histórico estabelecimento. Estabelecemos um tratado de paz que pôs em suspenso os nossos intermináveis embates, políticos e pessoais, e fechamos questão no afeto que nos unia e no compromisso com Pedro Leopoldo: ele abria estradas com asfalto, eu queria pavimentá-las com o debate. Ele plantava árvores, eu as recebia e exigia mais.

E foi para a nossa cidade que voltamos felizes já de madrugada. Ainda hoje, costumo sorrir ao me lembrar dessa noite: foi quando tive a certeza de que meu pai, tão diferente e tão parecido, gostava de mim e do meu jeito de ser. E nós dois amávamos Pedro Leopoldo.

 

 

 

Bianca Alves

Criadora e editora do projeto AQUI PL, é formada em Comunicação Social pela UFMG e trabalhou em publicações como os jornais O Tempo, Pampulha, O Globo; revistas Isto é, Fato Relevante, Sebrae, Mercado Comum e site Os Novos Inconfidentes

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