
Um relato de Eliane Matilde
A rua é palco de muitas histórias. A rua é um mundo por onde flui a vida feito um canto de vozes, desde o cantar de uma criança ao de uma vovó quem sabe (ouço essas vozes enquanto escrevo… são suaves e mágicas, ecoando na rua); são vozes que criam um universo entre as estações, entre pensar, dizer e fazer acontecer.
E se há ruas e ruas, pessoas e pessoas, há a rua dona Maria Leroy, no bairro Adélia Issa, para nos apresentar um querer das pessoas dessa, nessa e por essa pequena “grande” rua de gente boa, feliz, animada e sonhadora.
E, como tal, a rua, enfim, se tornou palco, mais uma vez, de uma “festa Junina”, (porque mesmo sendo mês de julho, o nome da festa segue a tradição, uai). Sendo assim, fechando este mês com chave caipira, a caráter, movidos a felicidade, invernim quentim, quadrilhão, caldos, quentão, canjica, pipoca, fogueira, bandeirinhas e cia, e tudo mais a que temos direito, meros mortais, é que a rua Maria Leroy vem contar um pouco dessa história através de alguns de seus moradores ou de adjacências, amigos, transeuntes…

Deyse dos Santos, uma das moradoras e idealizadoras do projeto, conta que tudo começou pelo Boi da Manta. “Falei com Marcus Paulo e o pessoal que havia crianças na praça que nunca tinham ido ao Boi da Manta. Daí fizemos um pequeno Boi da Manta. Vi que foi bom para as crianças e para a alegria do meu filho. Depois passaram uns dias, Marcus Paulo me falou que podíamos fazer uma quadrilha na rua; e assim estamos indo até hoje com o nosso Boi, nossa Quadrilha, que hoje está só crescendo, inclusive nossa vizinhança, amigos(as) e parentes estamos nos unindo cada vez mais, graças a Deus; e sem contar que temos também a festinha das crianças; enfim, já são 3 anos dessas três festas maravilhosas.”
Maria de Fátima Lima, mãe da Deyse, é moradora da rua Dona Maria Leroy há 29 anos. “A rua era muito tranquila, até que um dia minha filha chamou a vizinhança para fazer um pequeno Boi da Manta para as crianças que não o conheciam no centro da cidade. E não é que deu certo? Daí o meu neto Marcus Paulo perguntou para a mãe dele porque ela não fazia uma festa junina na rua e, para o filho dela ficar feliz, ela então saiu de casa em casa para conversar com os vizinhos e assim fizeram. Cada um deu uma coisinha, as crianças fizeram as bandeiras, os pais e as crianças começaram a enfeitar a rua e o nosso amigo e vizinho Iru, coitado (risos) busca lenha daqui, busca lenha de lá, pois tinha que ter nossa fogueira. E assim nasceu uma festa maravilhosa, com caldos, canjica, cachorro quente, pipoca e muita diversão, som de carro e uma caixa de som do vizinho, pois tínhamos que fazer a quadrilha improvisada. Tudo começou em 2023 e a nossa festinha está crescendo a cada ano que passa. Agora já estamos pensando na nossa festinha das crianças, que também já vai para três anos.”
Lizette Campolino, também idealizadora e moradora, acrescenta: “cada ano que passa só melhora. Minha mãe mora na rua e eu sempre ajudo com muito carinho porque ela ama essa rua – e todos nós também amamos. A união entre os vizinhos é algo especial: é uma rua cheia de amor, onde todos se ajudam e se respeitam. Eu nasci e cresci na Rua Maria Leroy, e ela marcou a minha vida com lembranças lindas. Essa festa é uma forma de celebrar essa união bonita e fortalecer ainda mais os laços da nossa vizinhança. Que esse momento se torne uma tradição.”

Renata Easy destaca a importância da mobilização, inclusive pelas redes sociais. “É o terceiro ano do Forró da Rua e percebemos que a festa só melhora! O clima de alegria, entusiasmo e solidariedade se inicia na organização da festa pelo grupo de WhatsApp, no qual os vizinhos se prontificam a ajudar com o que podem. E o resultado é uma festa a cada ano melhor!”
E é assim que a Festa Junina da rua Dona Maria Leroy completa seu 3º ano consecutivo. Contudo, não se enganem, apesar do pouco tempo, já é um acontecimento sólido, concretizando sua existência por tempo indeterminado. Nada é vendido ou ensaiado. Em um grupo de WhatsApp, é feita a maioria das ações, doações e sugestões. Cada um vai se oferecendo para contribuir, assumindo responsabilidades e, no dia combinado, escolhido previamente através de votação no grupo virtual mesmo, a festa acontece; numa harmonia que só uma comunidade unida e solícita consegue ter.
No bairro Adélia Issa, a notícia fresquinha do fim semana passado, portanto, apresenta-nos moradores conectados e proativos que vencem a falta de opções de lazer e entretenimento, apropriando-se de riquezas culturais, construindo fora dos muros, ocupando o espaço coletivo, socializando a vida em amplitude, sem subterfúgios, simplesmente doando-se cada um a si mesmo e ao próximo com o que de melhor são capazes de oferecer.
Ah… se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes para toda essa gente passar…na rua Dona Maria Leroy!








