Se uma cidade é criação do seu povo, a descoberta de sua essência obrigatoriamente passa pela sua arte e cultura, diz Carlos Alberto Reis de Paula*

O dicionário nos ensina que enquanto a palavra anverso significa “a parte anterior ou principal de qualquer documento que tenha dois lados opostos”, o vocábulo verso quer dizer “página oposta à da frente”. Se passarmos do mundo das palavras para o universo das fotografias, surge o Poeta Maior Carlos Drummond de Andrade para quem “Itabira é apenas uma fotografia na parede”, confidência que tem origens específicas, pelo que “como dói”.
A nossa PL pode ser fotografada sob vários ângulos, todos encantadores, mas fascinante é o verso da fotografia, revelada no livro Arte & Cultura em Pedro Leopoldo: centenário, saberes e encantamentos.
Livro gestado por um grupo de jovens que nos anos 1960 engendrou um movimento político-cultural cuja vitalidade aqui é retratada. Do talento dos sempre jovens Georgina e Ivan, a que se somou o do Eduardo, surgiu o livro que é antes de tudo a proclamação de uma Revelação sobre o que é Pedro Leopoldo.
Se uma cidade é criação do seu povo, a descoberta de sua essência obrigatoriamente passa pela sua arte e cultura, não apenas do ponto de vista individual, mas também coletivo, a desvendar suas origens e evolução.
Uma cidade é um ser crescente e plural. Verdade que a nossa terra tem renome até internacional pela presença iluminada de Chico Xavier, nosso conterrâneo, bem o sabemos. Centenária que é, descobre-se que há de ser conhecida também por artistas e manifestações culturais que deram e dão vida ao seu dia a dia, encantando a nós e a quem nos visita.
O que os coordenadores desse livro nos revelam, em laborioso trabalho de dois anos, é que a cidade foi e continua sendo construída por artistas a compor uma cena cultural rica e variada, por instituições e pessoas que escreveram história ou têm muito a contar em manifestações culturais como Reinado e Reisado, reavivando a nossa formação étnica, além do irradiante Boi da Manta, tudo aqui em referências meramente ilustrativas.
Há um aspecto que merece destaque. Os coordenadores, com muita arte e engenho, fizeram uma obra coletiva no sentido pleno, realizando uma pesquisa notável e, para tanto, trouxeram como colaboradores pessoas da comunidade especialistas na arte de comunicação, quer jornalística ou midiática, assim como agentes culturais. Destacaram a formação do povoado da Quinta do Sumidouro com a casa do bandeirante Fernão Dias Paes Leme, no século XIX, a Festa de São Sebastião do Urubu cuja origem é de 1883 e a primeira missa em janeiro de 1907, quando Pedro Leopoldo era distrito de Santa Luzia.
A nossa PL passou a ser história a ser contada e cantada!
O processo de revelação é um processo de descoberta que, ao ser coletiva, como a de que ora tratamos, se fortalece e é ampliada. Não só pelo estímulo pessoal aos envolvidos na própria criação, pois que por sua divulgação possibilita que seja estimulada com os aplausos a gerar o desejo de aprimorá-la e desenvolvê-la. É o sentimento de quem participa como agente individual e/ou coletivo.
A revelação dos talentos individuais e realizações coletivas é partilhada com a própria comunidade, porquanto o êxito não só é individual, mas dela própria. A razão de assim ser é por revelar os traços fisionômicos de nossa terra.
Há de se cuidar para que esses talentos e realizações coletivas se transformem em árvores frondosas, como nos ensinam os Evangelhos. Para tanto torna-se indispensável que sejam valorizados o que significa lhes proporcionar condições de se fortalecerem e se desenvolverem, com ramificações múltiplas.
Nessa perspectiva é que reside a grande riqueza desse livro. Trabalho individual e coletivo, que se torna amplamente conhecido por todos e que, quanto mais divulgado, volta à comunidade na forma de apelo para que as revelações sejam preservadas, estimuladas, ampliadas e solidificadas.
O desafio que se coloca é para todos nós, comunidade e gestores públicos e privados.
Uma cidade pode ser vista por variados ângulos como o aspecto econômico sob o olhar industrial e financeiro, abrangendo mineração, agropecuária, biotecnologia, turismo, prestação de serviços, e outros mais. Entre as diversas possibilidades, um valor mais alto se alevanta, dirigindo-se diretamente às pessoas que compõem a comunidade, por se referir especificamente à instrução e à cultura, em síntese, ao saber.
É a grande revelação deste livro, a cuidar de arte, cultura e saber da nossa terra, pelo que as suas palavras nasceram para ficar, ou seja, com a índole de perenidade.
Nossa terra não pode perder o tempo da história que nos desafia a investir em educação e cultura de forma expressiva, para o que sobretudo os gestores públicos e privados devem ter os olhares atentos, provocando, estimulando, gerenciando e até mesmo financiando as boas iniciativas.
Por tudo isto digo uma palavra final aos organizadores e participantes do livro Arte & Cultura em Pedro Leopoldo: centenário, saberes e encantamentos: Vocês escreveram seus nomes com letras definitivas na história de Pedro Leopoldo. Muito obrigado!

*Carlos Alberto Reis de Paula nasceu em Pedro Leopoldo em 1944. Foi professor do Colégio Estadual de Pedro Leopoldo nos anos 1966/1973, professor de Direito da UFMG a partir de 1985 e da UnB desde 1999, Juiz do Trabalho a partir de 1979, tendo sido Desembargador do TRT MG e Ministro do TST a partir de 1998, que presidiu. Aposentado, desde 2014 é advogado e consultor jurídico. Na foto, ele toma posse como presidente do TST; ao lado, a presidente Dilma Roussef.



