Pedro Leopoldo falha em valorizar o legado de Chico Xavier

Pedro Leopoldo falha em valorizar o legado de Chico Xavier

(foto Carlos Renato)

Enquanto Uberaba ganha projeção nacional como tema da escola de samba Tom Maior, em São Paulo, exaltando sua história e divulgando o legado de Chico Xavier, Pedro Leopoldo parece ainda não reconhecer plenamente a força do próprio patrimônio histórico e espiritual. Foi aqui que Chico nasceu e viveu mais da metade de sua vida, construindo as bases de uma trajetória que transformaria milhares de pessoas. No entanto, a cidade pouco se apropria dessa identidade como elemento estruturante de seu potencial turístico e cultural.

Esta falta de visão estratégica é sentida por quem chega em nossa cidade, movido pela fé, pela curiosidade ou pela admiração. Enquanto Uberaba investe em sua imagem e colhe os frutos da divulgação, Pedro Leopoldo deixa escapar oportunidades valiosas de acolher e encantar visitantes que enfrentam horas de estrada para conhecer os passos de seu filho mais ilustre. Falta organização, comunicação e infraestrutura básica para transformar memória em experiência — e experiência em desenvolvimento para a cidade.

Estou com uma família de cinco pessoas hospedada aqui na minha pousada. Eles são de Juiz de Fora e vieram conhecer Pedro Leopoldo por causa do Chico Xavier. No entanto, chegaram aqui e pouco conheceram do roteiro “Caminhos de Luz”, que registra os passos do médium em nossa cidade.

Não puderam conhecer a Fazenda Modelo, que há um bom tempo está sem receber visitantes. A Casa de Chico está fechada no recesso do Carnaval e não colocou aviso nas redes. O memorial da família em frente ao Luiz Gonzaga, a mesma coisa. O Capão não está preparado para receber ninguém. Ou seja, estas pessoas viajaram seis horas apenas para conhecer o Centro Espírita Luiz Gonzaga e sentar ao lado da estátua de Chico na praça da prefeitura.

É bom salientar que nem sempre a culpa é dessas instituições, a maioria particulares e mantidas por meio de doações e trabalho voluntário. Mas elas não podem trabalhar sozinhas. Precisam de apoio público – no caso as secretarias de cultura, turismo, desenvolvimento –  para manter tais estruturas, receber as pessoas e, assim, contribuir para a economia municipal.

Para aproveitar o tempo, estes visitantes fizeram passeios em Belo Horizonte e imediações. Aqui, indiquei a Gruta do Baú, que reabriu no sábado e o Parque Estadual do Sumidouro. Não foram os únicos admiradores de Chico Xavier a se frustrar com o que temos a mostrar sobre ele. Essa situação aconteceu com mais três famílias que vieram para cá entre o Natal e o Ano Novo. E também com algumas que chegaram no início de janeiro.

Pensem bem: esses turistas vão recomendar os espíritas de suas cidades a virem para cá ou para Uberaba?
Para recebê-los bem, falta muita coisa. A cidade não tem um site com os pontos turísticos que podem ser visitados, um encarte impresso para distribuir aos turistas e, principalmente, investimento na infraestrutura dos pontos turísticos – para que eles estejam abertos quando os turistas vierem.

Não nos faltam atrativos… aliás, o que tenho percebido é que muita gente gosta da cidade. Nós, que moramos aqui e amamos a cidade, somos muito críticos porque sabemos o potencial que a cidade tem, mas não o realiza. Mesmo assim, muita gente que fica pouco tempo entre uma escala de voo ou numa viagem curta dessas gosta daqui. Acham a cidade tranquila.

O pessoal do norte do Brasil aprecia muito o clima, porque não é tão quente e tem brisa. Temos ainda áreas verdes ao redor da cidade… enfim… são pontos importantes nos quais não prestamos atenção. Poderíamos explorar isso muito melhor com um investimento não tão alto. Receber melhor e, principalmente, mostrar mais do nosso conterrâneo mais ilustre. Com tanto descaso e desorganização, acabamos confirmando aquela lenda – porque é uma lenda – de que Chico foi expulso de sua cidade natal.

Confira a visita de um admirador de Chico, vindo do Nordeste, à cidade. Teve mais sorte que as famílias que vieram no carnaval. Leia aqui

Camila Rajão

Historiadora e mestre em Letras, atua como professora da rede pública de ensino e pesquisadora nas áreas de História e Literaturas africanas. É presidente do Partido dos Trabalhadores em Pedro Leopoldo

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