Os 102 anos de uma velha companheira: registro, em linhas e fotos, de memória e esperança*
Comemorar 102 anos de Pedro Leopoldo é como soprar velas diante de um espelho: nelas estão as rugas do tempo, que também desenhou as que tomam o nosso rosto. A figura de linguagem me é sugerida pela IA e decido utilizá-la, já que é perfeita para definir a relação entre a minha geração e a cidade onde nascemos.

Afinal, crescemos junto com essas ruas, aprendemos a andar nos seus buracos e desníveis e, rito de passagem, a cruzá-los de bicicleta, quando as bicicletas eram para todos. Aqui, aprendemos a sonhar sob suas árvores antigas, a reconhecer o cheiro da chuva misturado ao pó das calçadas e das novas construções. Cada esquina guarda um pedaço nosso e cada mudança na paisagem deixou marcas no nosso coração.

Por isso, cada vez que a cidade perde algo, sentimos sua ausência também em nós. E a verdade é que cidade perdeu muita coisa, ah, perdeu… Perdeu casas e, nelas, quintais. Neles, jardins e árvores. Perdeu sombra e frescor, estilo e identidade. Perdeu festas e celebrações que juntavam todos, definindo uma cidade em sua melhor versão.

A lúdica festilândia de Nicolau Neto reunia ricos e pobres na democracia de rua e se estabelecia em locais como as exposições agropecuárias ou a pizzaria Casa Verde, que, durante anos, juntou na madrugada tanto o peão que saía da fábrica quanto o filho do magnata que voltava da balada.

Aqui e ali, moram escondidas as lembranças de tudo o que o vivemos, em vários momentos de nossas vidas: as tardes de domingo no Vagão e no Honey; as festas do Poste; os shows de Gleison e Jegão; as batalhas de água na piscina e os bailes de debutantes no Clube Social; as partidas de vôlei e os bailes no clube da Cauê; os piqueniques no alto da Cachoeira do Urubu; o murinho de Dona Chiquita para ver passar o boi da manta e o carnaval de rua; os shows de Sidnei Magal no Ceppel; os desfiles das candidatas ao glamour-girl; a hora do recreio no Colégio Imaculada…

Esta é a nossa história, minha e dos meus colegas de escola, de rua, de festas. Que está nos silêncios que ecoam nas praças, das casas que caíram e deram lugar a memórias mais altas que os prédios que tomaram seus lugares. Vimos gerações passarem como procissões e o progresso chegar com pressa. Aqui amamos, nos encontramos, tivemos filhos, sofremos demais e celebramos mais ainda; aqui aprendemos que o tempo não apaga, apenas transforma. A cidade envelheceu conosco, mas nunca deixou de nascer outra vez.

Tantas perdas nos ensinaram a esperar, a resistir, a recomeçar. Hoje, ao celebrar mais um ano de existência, Pedro Leopoldo se apresenta a nós como como uma velha companheira. Nós a reconhecemos naquilo que não existe mais e, ao mesmo tempo, naquilo que ela preserva, seja o toco de uma ex-árvore, a cor de um muro ou o brilho no olhar de quem passa por nossas vidas.

Isso acontece porque nós, a cidade e seus moradores, somos feitos da mesma matéria: lembrança, luta e esperança. Enquanto a cidade seguir contando sua história, a nossa também será contada através das lutas que assumimos e que seguem com nossos filhos. Pois se o nosso olhar reconhece o passado e lamenta perdas, ele também insiste em acreditar no amanhã e esperar o melhor do que está por vir.










