Se Pedro Leopoldo fosse uma estrela de cinema, quem seria?

Se Pedro Leopoldo fosse uma estrela de cinema, quem seria?

Parabéns Pedro Leopoldo.

Parabéns pra você.

Perdeste o footing na praça,

Ganhaste o pó da Cauê.

Essa trovinha, única poetada que conheço do meu irmão Halem, foi publicada no jornal de outro irmão, Marcos, e depois no de Bianca Alves. Aqui ela volta para ilustrar uma reflexão sobre a nostalgia, pois nem pó da Cauê existe mais, mas outros miasmas pairam sobre a cidade.

Os jovens de hoje praticam um footing digital, caminham com os dedos, pois footing vem do inglês to foot, caminhar. Moças caminhavam num sentido da praça; rapazes, no sentido contrário. Tenho vaga lembrança, acho que era ali entre a igreja e a praça Dr. Senra. Daquele ritual social e do flerte (outra palavra inglesa: flirt) o encontro (sempre mediado por conhecidos) nascia; e depois nasciam famílias e filhos e filhas. Não existia televisão.

Halem, também irmão, lembra o footing com nostalgia, sentimento que devasta ainda mais o que já se vê como devastado: troca a pergunta “o que podemos ser” por “por que não somos mais como antes?” O preço que se paga nessa troca é a dor. Nostalgia, do grego nóstos, retorno, volta para casa e algo, dor. A dor do retorno impossível.

Impossível a petit Paris, aspiração simbólica de um tempo há muito perdido em que o modelo era a França (eu mesmo estudei francês no Imaculada). No fim do século XIX e começo do XX, todo mundo queria dizer: “ei, olha aqui, não somos mais roça, somos cidade”. Quando eu era criança, a cidade voltara a ser roça, refazenda fantástica com seus fazendeiros-prefeitos e a mítica vaca Conquista, a de divinas tetas. Ao mesmo tempo, a fábrica de tecidos e a Cauê permitiam que a cidade se pensasse “industrializada”, que era o chique na época.

Hoje, quando o futuro vacila e vem o pânico do devir cidade-dormitório, cidade-fantasma, é preciso abandonar de vez qualquer nostalgia. O que digo hoje, com sinceridade, sem idealização joseissaliana, é que não é mais sempre agradável estar em Pedro Leopoldo. Se o é habitar, há pessoas muito talentosas que moram na cidade, e podem dizer.

Fazer parte de uma região metropolitana já é em si complicado. Tende a diluir a identidade da cidade ao ponto da conurbação, quando as cidades perdem a distinção de limites físicos, como acontece hoje entre Betim, Contagem, Belo Horizonte e Nova Lima.

Pedro Leopoldo, incrustada entre 34 municípios, com seu nome tecnocrático e anódino, atraía imensa atenção quando seu filho mais ilustre ainda residia na cidade, que depois o viu partir, e ainda fracassou em ligar seu nome à terra natal. Perguntem a qualquer brasileiro bem informado, que não seja espírita, quem foi Chico Xavier e haverá resposta correta. Agora, perguntem onde ele nasceu, e a resposta será: Uberaba. Numa pesquisa dessas, aposto em 100%.

Quando, por essas voltas que o mundo dá, fui trabalhar para a prefeitura de Betim, eu não sabia nada sobre a cidade, aliás, uma das mais ricas do Estado (depois fiz concurso e estudei a história da cidade, achando que cairia na prova. Só então aprendi que Betim foi um bandeirante). Mário Campos e Brumadinho têm Inhotim de um lado e mineração de outro. Uns gostam dos olhos, outros da remela.

Então, depois de alguns anos, fui apresentar numa palestra uns dados interessantes que havia coletado em meu trabalho.

Prevendo que a plateia, assim como eu anteriormente, achava que toda cidade da região metropolitana é a mesma coisa, decidi começar com uma provocação bem-humorada: Jane Fonda é uma coisa, Rachel Welch outra bem diferente. Isso caminhou para a brincadeira de “e se fosse” – no caso, se as cidades vizinhas fossem estrelas de cinema.

Betim seria Sophia Loren: força vital, beleza madura, voz grave. Charmosa por não tentar ser charmosa.

Sabará, sóbria, seria Ingrid Bergman. Elegância sem esforço, herdada. Dignidade no silêncio.

Nova Lima é Grace Kelly. Rica, bela, bem situada.  A atriz virou princesa, a cidade virou símbolo de distinção, mas com certa frieza.

Lagoa Santa, aonde os pedro-leopoldenses vão almoçar aos domingos, é Audrey Hepburn. Delicada, luminosa, leve. Não anda: flutua.

Caeté é Octávia Spencer: forte, altiva, montanhosa. Não se molda facilmente e, talvez por isso, conserva dignidade própria.

Pedro Leopoldo, entre o passado perdido e o medo de um futuro inglório de cidade-dormitório, o que seria se fosse um ícone do cinema?

Que digam os leitores, os jovens idealistas, os artistas que insistem, os jornalistas que não desistem, os empresários que se responsabilizam eticamente, os cidadãos e cidadãs.

E sim, Pedro Leopoldo, parabéns pra você.

 

Alan Freitas Passos

Médico-psiquiatra, psiquiatra forense, médico-legista ( RTD). Escreve de vez em quando

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