Sinval Alves da Silva [Mocó], meu pai.

Sinval Alves da Silva [Mocó], meu pai.

Mocó e sua esposa Georgina

Uma crônica de Georgina Vieira

16 de julho de 2009. Meu pai sendo velado no prédio da Câmara, deferência do prefeito Marcelo Gonçalves e da Câmara Municipal, da qual foi presidente por um mandato, dos três que ocupou. Naquele momento de muita dor, aproxima-se uma pessoa desconhecida e nos diz: “quando eu tinha 16 anos, arrumei um trabalho na Fábrica, mas eu não tinha um tostão. Perguntei ao seu pai se ele me vendia uma bicicleta fiado, que eu pagaria mês a mês. Sem me conhecer, me concedeu o crédito. Sem a bicicleta, eu não poderia aceitar o trabalho que era essencial à família”. Na mesma ocasião, uma parente me segredou: “seu pai ia à nossa casa, e, sem que ninguém visse, colocava no bolso do avental da minha mãe, um dinheiro que muito nos ajudou. Outra senhora dizia que nunca se esqueceria da comida que ele levava até à sua casa, sem a qual a família passaria fome”. Este lado do meu pai, conheci no seu velório.
E ao longo desse tempo, 16 anos passados, fui reconhecendo o pai que o cotidiano encobria – falava muito do pai e pouco de si mesmo. Ria em muitas ocasiões, mas escondia a tristeza. De vez em quando, no final da noite, quando estávamos a sós, ele recordava do dia em que a mãe morreu, quando ele tinha 17 anos, da sua irmã mais nova que se foi muito jovem e lembrava também, um a um, dos seus 13 irmãos mais velhos, todos já falecidos.


Gostava de jogar escopa com os filhos, que adoravam vê-lo satisfeito da vida quando deles ganhava. E nós, muitas vezes, perdíamos de propósito, para vê-lo rir, junto com a minha mãe, sua parceira de vida e de jogo.
Antes ainda, não sei com que disposição, pegava o seu Ford 1950 e nos levava a BH duas vezes por semana, para estudar acordeon e violino, instrumentos que permitiam ser transportados a qualquer lugar, conforme ele dispunha. Daí, a minha frustração de não ser uma pianista. E, quase sempre, nos levava para lanchar, jantar ou almoçar na famosa Camponesa, na Churrascaria Pampulha e no Frango Assado, os dois últimos no caminho de Pedro Leopoldo. Seu famoso apetite nos proporcionou bons momentos de boas comidas.
Adorava ver nossos boletins do Colégio. Realizava nos estudos dos filhos o que considerava ser o seu principal papel. Sem nunca o dizer claramente, se orgulhava de cada diploma de nível superior conquistado por nós, os sete filhos. E assim, ficaram de lado a braveza, o rigor controlador, o nervosismo. Ficou o homem que morreu aos 89 anos, sem ter ficado velho.

Georgina Vieira da Silva

Psicóloga pela PUC-MInas, Mestre e Doutora em Psicologia Social pela USP

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