Um memorial para a gente ser feliz

Um memorial para a gente ser feliz

Memorial de Chico Xavier, em Uberaba

No último final de semana tive o privilégio de viajar com um grupo de amigos, aqui de Pedro Leopoldo, para as cidades de Uberaba e Sacramento. Uma forma de sair da rotina, recarregar as baterias, ver coisas, pessoas –  gente diferente. No caso específico, uma viagem mais voltada para o lado da alma, da espiritualidade, o que não impediu a observação necessária das características e peculiaridades da cultura local.

Dentre alguns eventos e trocas de ideias e conhecimentos, chamou-me bastante a atenção uma palestra que assisti de uma senhora da qual, infelizmente, não me lembro mais o nome. Em certo ponto, ela abordou a dificuldade de sabermos lidar com a felicidade.

Citou como exemplo a recente e atual decoração das luzes de natal nas praças de Uberaba, para a alegria de crianças, jovens e idosos. Fez o comentário com uma amiga, que a teria respondido argumentando que a tal decoração deveria ter custado “os olhos da cara” para a prefeitura.  Não sei se foi essa a expressão usada, mas, tenho certeza, alguma coisa nesse sentido.

Confesso que tal comentário me deixou bastante “encucado”! Será que de fato, nós, seres humanos, temos como uma de nossas características a dificuldade de sermos felizes, principalmente com as pequenas coisas da vida, como a alegria de uma criança tomando um sorvete em uma praça cheia de árvores e iluminada com as luzes do dezembro que se aproxima?

É claro e evidente que a felicidade jamais deve ser confundida com a ingenuidade da ausência da fiscalização dos gastos públicos, ou da indiferença de vivermos em uma sociedade de grande exclusão e desigualdade social, em que políticas públicas são substituídas pela execução de pessoas negras e pobres, para o aplauso de muitos que se dizem cristãos.

Entretanto, talvez aí esteja o “X” da questão! Será que a nossa dificuldade na labuta pela conquista da felicidade não está associada à ausência, ou até mesmo a um certo desprezo pela nossa cultura, arte e história? Sem cidadania não há alegria! E também pluralidade, diversidade, tolerância e reflexão. Pois, cidadania só se alcança com cultura, história e arte. Para todos! Sem exclusão e desigualdade.

Pedro Leopoldo não tem um teatro, nem parques municipais, nem um arquivo público, muito menos um mercado municipal. Tinha cinema! Está fechado. E o que dizer da ausência de um Memorial para o seu filho mais ilustre?

Pois em Uberaba visitei o mercado municipal. Local de farinha, frango, queijo, peixe, cerveja, história, prosa, causos, música, terço e cachaça!  Ponto de encontro de gente e pessoas de todos os jeitos e classes sociais. É essa interação de diferenças que faz uma cidade progredir em seu patamar civilizatório, econômico e social.

E que espetáculo o Memorial Chico Xavier! Espetáculo da coisa bem feita e realizada sem extravagância e suntuosidade. Local agradável, central e de fácil acesso, espaço apropriado e arborizado. Bem projetado. Algo de espiritualidade. Tudo de arte, cultura, história e cidadania.

Pelos cômodos e paredes da construção correm as histórias do Chico, de Uberaba, Minas Gerais, do Brasil e da humanidade, tendo como principal característica a tolerância, a empatia e o respeito às diferentes visões de mundo. Um espaço democrático que turistas, visitantes e os alunos das redes públicas e particulares da região visitam, aprendem e se sentem felizes. Sem maiores dificuldades.

O mais curioso é que Pedro Leopoldo está lá, naquelas paredes e não nas nossas! E não é por falta de não termos quem nos conte. O Boi da Manta está aí! O aniversário do Poste pode voltar. E o que dizer do arquivo Geraldo Leão, das corporações musicais, dos nossos artistas e historiadores e das nossas antigas e belas construções que ainda não deram lugar aos caixotes de concretos? Ainda temos grutas e cachoeiras em Fidalgo, Matuto, na Quinta e no Urubu, como a que vi em Sacramento, valorizada pelo povo de lá.

Voltei da “viagem” no domingo, observando a chuva e o nevoeiro que cortava as rodovias do Triângulo Mineiro e das Minas Gerais. “Matutando” de como é fácil ser feliz! A gente é que dificulta o negócio por teimosia e ignorância de valorizar o que não tem valor e de não dar valor ao que vale uma vida.

E se quem realmente manda no mundo e em PL City só valoriza o poder da grana que ergue e destroi coisas belas – através da nossa inércia cidadã –  então vamos convencê-los por este lado!  Um mercado municipal, parques públicos, cinema, teatro, eventos populares, apresentações culturais, arquivo público e o Memorial do Chico Mineiro Xavier do Século XX trazem turismo, emprego e renda. Aquecem a economia e melhoram a condição de vida de toda a comunidade. Com arte, cultura e felicidade!

O importante é convencer e não desanimar! Não deixarmos que enterrem o nosso futuro na tristeza da economia burra.  Que a Fábrica de Tecidos não seja o túmulo de Pedro Leopoldo, pelo contrário! Junto com o Capão e o futuro Memorial do Chico, pode ser o reinício, o renascimento para quem teima e quer ficar por aqui, pelas nossas bandas, no nosso lugar. A nossa casa. Zelemos por ela, com felicidade… Muita felicidade!

 

Matheus Borges

Matheus Campos Borges, Servidor Público Estadual, graduado em Jornalismo e Direito com especialização em Direito Civil e Processo Civil.

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