
Por Pedro Lúcio Lithg Pereira*
Existem várias histórias a respeito das razões que levaram Chico Xavier, talvez o nosso mais ilustre concidadão, a trocar a jovem Pedro Leopoldo pela próspera Uberaba. Incompreensões, desilusões, certo isolamento cultural, entre outros motivos, sempre envolveram a vida e a obra de Chico Xavier em intermináveis e polêmicas versões sobre essa escolha.
Sem querer acrescentar mais uma versão a essa história e muito menos polemizar, gostaria de relatar o que me contou, há muito tempo, o professor da Escola de Veterinária da UFMG, Prof. Luiz Rodrigues Fontes. A versão do Prof. Pontes carece, no entanto, de provas documentais, sendo apenas uma versão testemunhal.
Desde o século XIX, o Brasil importa da Índia raças bovinas do gado zebu. Em 1919, com o incremento das importações e a necessidade de preservar a pureza das raças zebuínas em território nacional, criou-se, em Uberaba, a Sociedade do Herd Book Zebu (SHBZ), cujo objetivo era organizar o registro genealógico do gado zebu no país. Posteriormente, em 1934, a Sociedade Rural do Triângulo Mineiro incorporou a Herd Book e, em 1967, a entidade foi transformada na Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), sediada na mesma cidade.
Segundo o Prof. Fontes, a escrituração e o arquivo dos livros de registros genealógicos do zebu no Brasil eram realizados na Fazenda Modelo, em Pedro Leopoldo. As grandes importações de zebu ocorreram nas décadas de 1950 e 1960 do século passado, momento em que a então Sociedade Rural do Triângulo Mineiro requisitou a transferência dos arquivos e da escrituração dos registros genealógicos da Fazenda Modelo de Pedro Leopoldo para sua sede em Uberaba.
Naquela ocasião, ainda segundo o relato do Prof. Fontes, um dos funcionários incumbidos das atividades relacionadas ao registro das raças zebuínas no país era o nosso insigne conterrâneo Chico Xavier. Por essa razão, familiarizado com a escrituração dos registros genealógicos e na condição de funcionário público, Chico teria sido transferido para Uberaba, em 1959, cedido pelo Ministério da Agricultura, para exercer as mesmas funções junto à Sociedade Rural do Triângulo Mineiro, posteriormente transformada na ABCZ.
Portanto, a mudança de Chico Xavier para Uberaba, de acordo com o Prof. Fontes, obedeceu a uma mera injunção burocrática, a qual ele poderia, sem maiores dificuldades, ter evitado, dado ao seu arraigo telúrico e familiar. Preferiu, entretanto, a mudança.
Embora não seja minha intenção polemizar, como afirmei no início deste texto, pode-se pensar que o trâmite burocrático tenha surgido como uma oportunidade conveniente diante de circunstâncias pessoais eventualmente já existentes. Contudo, quaisquer que tenham sido os motivos que o levaram a mudar-se para Uberaba, pertenciam exclusivamente a ele. Era a sua vida, a sua felicidade, e a nós não cabe mais do que esperar que tenha sido uma escolha afortunada.
*O pedro-leopoldense Pedro Lúcio Lithg Pereira é médico veterinário pela UFMG, com Mestrado em Epidemiologia pela UFMG e Doutorado (PhD) em Epidemiologia pela Universidade de León, na Espanha. Dedicou a carreira à docência e à pesquisa na Escola de Veterinária da UFMG, pela qual é aposentado


