Debater é diferente de torcer: #FiqueEmCasa

Debater é diferente de torcer: #FiqueEmCasa

Há aproximadamente duas semanas, publiquei um texto que versava sobre a necessidade do debate político cotidiano¹, afinal, somos todos seres políticos. Porém, não podemos simplesmente nos tornar torcedores das pautas que defendemos e nos basear somente nos nossos achismos.

Espero, novamente, que todas e todos estejamos bem e protegidos, e, se possível, em suas casas. Na data daquela publicação, 2 de abril, os dados relativos ao COVID-19 eram de mais de 936 mil pessoas que já haviam sido infectadas e mais de 47 mil haviam falecido, com 244 mortes e pouco menos de 7 mil casos no Brasil².

 

Agora, na noite de 19 de abril, já temos mais de 2,4 milhões de casos e mais de 165 mil casos fatais, e no Brasil, mais de 38 mil infectados e 2462 mortes³, isso sem considerar a subnotificação devido à ausência de testes no país. Os infectados pelo mundo mais que dobraram em 15 dias, e as mortes mais que triplicaram. No país, já temos quase seis vezes mais casos, com mais de 10 vezes o número de casos fatais.

 

Em 15 dias, ao menos, espero que tenhamos superado no país o discurso que esse novo vírus é somente uma “gripezinha”, como muitos infelizmente repetiram. A cada dia que se passa, com o aumento dos números, temos um pouco mais de noção da gravidade dessa doença, apesar de ainda estarmos muito distantes de visualizar o real impacto que isso terá no nosso futuro.

 

Na verdade, já temos várias alterações visíveis. Seja nas relações sociais, cada vez mais virtuais; seja no meio ambiente, parece agradecer a redução nas emissões de poluentes por todo mundo; sejam as dificuldades econômicas e na busca da cura que estão postas. Mas o quanto cada uma dessas se aprofundará e a permanência dessas mudanças, ainda parece cedo prever.

 

Tais questões pedem debates, que já vem sendo travados em todo mundo, nas grandes e pequenas cidades. Apesar de não serem (e nem devem, claro) feitas pessoalmente, são acaloradas as conversas nos grupos e nos posts nas redes sociais afora. E, como disse no texto anterior, “não podemos deixar de debater – com respeito e sendo propositivo”.

 

Claramente, cada um de nós tem lado e posição (considerando também que não se posicionar também é uma posição política, em grande parte das vezes junto à maioria – mas esse é outro ponto). Porém, não podemos simplesmente nos tornar torcedores de certa pauta, sem embasar nossos argumentos, num achismo infinito sem comprovação alguma.

 

Imagino, por óbvio, que todos estejam torcendo para que logo seja encontrada a cura; que nossos governos cumpram seus papeis corretamente, aplicando efetivas medidas de restrição para salvar vivas e se preocupando com a economia e o emprego; bem como logo superemos mais essa crise. Porém, não podemos nos cegar totalmente a torcer – nas redes ou mais onde for – sem analisar o todo dos fatos, e aí sim, emitir opiniões políticas.

 

Por exemplo, quanto à cura. São muitos aqueles que torcem cegamente para que a cloroquina (ou hidroxicloroquina) seja logo assumida como o medicamento que irá salvar vidas, inclusive o Presidente da República (que, diga-se de passagem, deveria ser o menos “torcedor” entre nós). Eu, sinceramente, espero que seja e que logo tenhamos alguma formula que auxilie os pacientes na melhora e previna o contagio. Porém, ao menos até o momento, não temos comprovação cientifica de sua eficácia. Inclusive, em alguns casos, sua utilização indevida levou à morte de pacientes⁴.

 

Já quanto aos nossos governos, já aproveito para parabenizar nosso prefeito Cristiano Marião e o Secretário de Saúde Fabrício Simões, bem como toda sua equipe pelos decretos emitidos aqui. Por mais que existam várias falhas em sua gestão municipal – em minha opinião, como na compra de imóveis por parte da prefeitura, no tratamento dado aos servidores públicos, entre outras – têm sido acertada a decisão do fechamento dos serviços não essenciais, bem como na utilização de mascaras no cotidiano. Isso tudo apesar de pressões que vem sendo feitas por parte de comerciantes e empresários que ou ainda não entenderam a gravidade da situação relativa à saúde pública ou simplesmente querem manter seus negócios a todo custo, inclusive pretendendo fazer carreatas, desrespeitando as normas sugeridas pela OMS.

 

Porém, ao invés de simplesmente pressionar nosso prefeito para que as coisas sejam reabertas, deviríamos todos pressionar os governos estadual e federal a salvaguardar nossas vidas e nossos empregos e empresas, disponibilizando recursos para tal. Apesar da liberação do auxilio de 1200$ por família (em proposta encaminhada pela oposição e com pressão da sociedade para ser liberada), bilhões de reais foram liberados para os bancos e grandes empresas, um dinheiro que provavelmente e infelizmente não chegará às mãos de quem mais precisa. Além de também as políticas emanadas por esse governo federal e pelo neoliberalismo como um todo, ainda prejudicarem enormemente os investimentos na saúde pública e no SUS, restringidos pela Emenda Constitucional 95.

 

Bolsonaro, numa política claramente eugenista, parece que quer escolher aqueles que podem viver ou morrer, além de suas posturas antidemocráticas, como vimos em ato nesse domingo, 19 de abril. Ao destinar recursos somente aos grandes (que em sua maioria já se encontram estocando alimentos e insumos básicos em suas mansões, fazendas ou iates durante a quarentena, inclusive com empregados), ignora tanto aqueles que não têm nem onde morar nem comer, quanto aqueles que precisam continuar trabalhando no dia a dia para sustentar suas famílias.

 

Em um momento de crise como esse, podemos visualizar claramente o quanto o sistema atual como um todo é falho. Se agora a crise se aprofunda para muitos, antes mesmo da pandemia milhões pelo mundo que já não tinham como se alimentar ou uma casa digna. E mesmo assim a decisão dos poderosos sempre foi ignorar o desalento dessas pessoas. Por isso defendo que precisamos derrotar esse sistema e suas políticas. Precisamos sim nos manifestar, mas para derrotar esse sistema que nos utiliza somente enquanto força de trabalho e reivindicar melhores condições durante essa crise, para permanecermos em casa. Agora que as maquinas estão paradas graças a uma crise de saúde, nós temos a oportunidade de ver o quanto somos fundamentais na produção da riqueza desse país.

 

Imagino que o desejo de todas e todos seja logo retornarmos aos nossos trabalhos, que possibilitam o sustento das nossas casas e famílias. Porém, agora é momento de nos recolhermos e, por enquanto, nos isolarmos para garantir a vida, o bem mais precioso que temos. Espero que aproveitemos o tempo, agora disponível, para pensarmos sobre esse sistema que nos rege e sobre como podemos melhora-lo para cada um de nós. Obviamente, essa é somente minha opinião, mas o debate está colocado e precisamos de disposição, coerência e argumentos com embasamento para fazê-lo.

 

#FiqueEmCasa

 

 

1 Pelo Debate Político no dia-a-dia: a pré-candidatura do PT em PL. 2 de abril de 2020. https://www.aquipl.com.br/pelo-debate-politico-no-dia-a-dia-a-pre-candidatura-do-pt-em-pl/

2 Idem

3 Live em tempo real da pandemia COVID-19, novo corona vírus. 19 de abril de 2020. https://www.youtube.com/watch?v=NMre6IAAAiU

4 Estudo brasileiro sobre a Cloroquina, CNN Brasil. 13 de abril de 2020. https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/04/13/estudo-brasileiro-sobre-cloroquina-e-interrompido-apos-morte-de-pacientes?fbclid=IwAR1q14mMPRmu7XOeEe-2czfM7Gm35KjXOZyYp4veEgQL8wc8bGp7JXFsaKE

 

Roberto Nery Pereira

Roberto Nery é graduando em Ciências do Estado na UFMG e militante do Partido dos Trabalhadores, atualmente compondo o Grupo de Trabalho Eleitoral do PTPL, a Coordenação do PT Micro Regional Calcária e a Secretaria Estadual da JPTMG. roberto.nery.pereira@gmail.com – instagram: robertonery13

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