Ao completar dez anos, o AQUI PL destaca aqueles que ajudaram a construir a cidade que somos hoje. Nossa primeira personagem é Zélia Cerqueira, cuja trajetória de 90 anos se confunde com a história da educação em Pedro Leopoldo

Dez anos podem parecer pouco na história de uma cidade. Mas, quando olhamos para tudo o que Pedro Leopoldo viveu na última década, percebemos que esse período foi suficiente para registrar transformações profundas, sejam elas positivas ou negativas, mas principalmente novos sonhos e muitas conquistas. É justamente esse percurso que o site AQUI PL ajudou a contar desde seu surgimento em 2016: um retrato permanente da cidade, preservado na memória da internet para as gerações presentes e futuras.
Ao longo desses dez anos, continuamos acompanhando os movimentos da política, da economia, das iniciativas sociais e, sobretudo, da cultura, que sempre ocupou lugar de destaque em nossas páginas também como revista e jornal – o projeto AQUI PL completa 30 anos em 2027. De uma maneira ou de outra, registramos acontecimentos, personagens, projetos e ideias que ajudaram a moldar a identidade contemporânea de Pedro Leopoldo.
Também testemunhamos algumas frustrações. Algumas já consolidadas na memória afetiva da população, como a perda do Fashion City, da Heineken, da tradicional Exposição Agropecuária, das árvores e quintais que desaparecem com as casas e ajudavam a desenhar a paisagem do centro da cidade. Outras ainda se apresentam como riscos e desafios: a preservação da fábrica de tecidos, da sombra generosa das ruas, do clima ameno e das conversas nas calçadas, que compõem uma forma de viver que não pode (e não deve) ser perdida.
Mas o AQUI PL nunca foi apenas um espaço para registrar lembranças do passado. Procuramos olhar adiante e o futuro de Pedro Leopoldo continua carregado de possibilidades. Um polo de entretenimento e feiras impulsionado pela força do Rodeio Show; a inovação encontrando rumo e inspiração na Faculdade; o turismo fortalecido pela presença afetuosa e permanente de Chico Xavier e pelo valor universal dos registros de Luzia; a cultura florescendo em incontáveis manifestações populares, nos criativos projetos de nossos artistas e na presença primordial dos músicos – em especial da Orquestra Sinfônica, patrimônio vivo da cidade.
Em cada uma dessas iniciativas, existem pessoas. Homens e mulheres que acreditaram em ideias, enfrentaram dificuldades e deixaram marcas positivas no desenvolvimento do município. Reconhecer essas trajetórias é o principal objetivo desta série especial que celebra os dez anos do AQUI PL.

Começamos por alguém que iniciou sua contribuição muito antes do surgimento deste site. Ao completar 90 anos em 2026, Zélia Cerqueira simboliza aquilo que talvez seja o mais importante investimento que uma cidade pode fazer por si mesma: o amor pela educação. Presença fundamental na formação de várias gerações de pedro-leopoldenses, ela retorna ao projeto AQUI PL – num resumo de sua história já publicada em nossas páginas e pelo olhar sensível de um de seus alunos, Alan Passos de Freitas, autor do belo texto a seguir.
Que esta homenagem seja também um convite. Um convite para celebrar uma educadora que se confunde com a própria história de Pedro Leopoldo e que representa, com rara grandeza, o que nossa cidade tem de mais bonito.
Perfil de uma Educadora

Aos 90 anos, completados em 18 de janeiro deste ano, Zélia de Cerqueira Barbosa exibe uma combinação rara de lucidez, elegância e paixão pela educação. Nascida em 1936, ela construiu uma trajetória de sete décadas dedicadas ao ensino e à formação intelectual de gerações de pedro-leopoldenses.
“Comecei do começo e fiz todo o percurso”, costuma dizer. Ao longo da carreira, foi professora do Jardim de Infância, do ensino primário, do ginásio, do ensino médio e da faculdade. “Minha vocação foi desde sempre ser professora. E do ensino público.”
Zélia entrou em sala de aula aos 15 anos, quando ainda cursava a primeira turma de normalistas do Colégio Imaculada. Lecionou no Jardim de Infância Luiz de Melo Viana Sobrinho, no Grupo Escolar São José, no Colégio Imaculada e no Colégio Padre Sinfrônio, onde também foi vice-diretora.

Sua ligação com o ensino superior começou como professora de Latim e Língua Portuguesa nos primeiros tempos da faculdade. Em 1982, assumiu a direção da então Fundação de Ensino Superior de Pedro Leopoldo em um momento crítico. “A faculdade estava fechando. Éramos um grupo de idealistas querendo salvá-la.” Durante 15 anos, liderou o processo de fortalecimento da instituição, sempre com uma preocupação central: a qualidade do ensino.
Com Zélia na direção, a FPL voou alto, vencendo limites e adversidades. Foram criados os cursos de Ciências Contábeis, a Faculdade de Direito e o Mestrado Profissional, pioneiro em Minas, além da escola Sebrae.

Com todo essa experiência e currículo, é da alfabetização que ela fala com mais emoção. “O trabalho mais bonito do mundo é a alfabetização. Quando uma criança aprende a ler, ela se torna dona do mundo. E a educação é o caminho para melhorar este mundo.”
Leitora assídua, apreciadora de bordados, caminhadas e viagens, ela resume seu amor por Pedro Leopoldo em uma frase simples: “O que eu mais gosto são as pessoas”. E as pessoas gostam dela, isto é certo.

A PROFESSORA, A CIDADE E AS IDADES DO TEMPO
Texto de Alan Freitas Passos
Abrir portas como quem se importa com alguém. Bibliotecas do imaginário. Como se suas mãos criassem estantes invisíveis. Duração da luz de clareiras na maduração da memória. Educação em todos os seus sentidos. Frases que não se apagam: falar rúim é ruim né gente? Grande agora, a menina se lembra. Herdou da professora mais que a ortoépia: Inspiração para a Jornada. Longa e sinuosa estrada. Memória é o que sabemos de cor: cordis, coração. Ninguém, e para ela ninguém era ninguém, esqueceu. Ninguém perdeu sua presença. Onde: Pedro Leopoldo, a pequena cidade. Professora assim, com P maiúsculo. Quem a conhece, sabe o que recebeu e devolve: Respeito. Sementes cultivadas com carinho, como se ali a flor já se mostrasse. “Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei, ensinai-me, ó Pai, o que ainda não sei”. Um dia lá, no ginásio, no outro, na universidade. Vozes que ecoam em homenagem. Xadrez do tempo tecido em mãos zelosas. Zélia, dona Zélia. Acabou o alfabeto, mas a lição da Senhora permanece.

Estas palavras, que não vieram sós, atendem a um desejo que é da cidade de Pedro Leopoldo. Um preito. As cidades envelhecem de modo diferente das pessoas. Algumas perdem parte, ou toda sua delicadeza pelo caminho.
Quando eu tinha ali meus onze anos, qual era meu mundo? Quem seria eu, no futuro? Era o tempo das possibilidades, boas ou más. Mero menino da periferia da cidade. Tempo: infinitivo. Enquanto estou escrevendo (gerúndio), agora (presente), me lembro que eu lia (pretérito imperfeito) qualquer coisa que caísse sob meus olhos. Dona Zélia me emprestou toda a coleção infantil de Monteiro Lobato (pretérito perfeito). Ela já me ensinara (mais-que-perfeito) muito antes que eu percebesse. Mestra dos bons modos, era comedida com o modo imperativo. Leia. Não, não era assim. A fonte de água límpida, solidária da sede, não precisa mandar nem pedir que se beba.
Naquele presente que agora é passado, muitos futuros, marcados por ela, floresceriam como seus alunos e alunos e, talvez, ela mesma, jamais imaginaria. Hoje, essas lembranças são nossos futuros do pretérito, e essas memórias são sombras iridescentes de nosso presente.
A cidade continuará mudando. Dona Zélia, nossa Professora, permanecerá (futuro do presente). Que continue assim (subjuntivo) pelos noventa, cem anos, qualquer idade, pela eternidade. Nossa gratidão.
A minha, em particular, pela mesma pessoa que, anos depois, me emprestou O Coronel e o Lobisomem, para a prova do vestibular da UFMG. Para Dona Zélia, emprestar era sinônimo de doar
É para sua sólida e leve presença que este aluno responde:
Presente!

Desde aqueles dias, aprendi muitas coisas. Tempos verbais intrigantes, que me dizem do mistério do tempo. Nós, que falamos português, temos o futuro do pretérito, futuro que está no passado. Em francês existe o futuro anterior, que nos coloca num ponto futuro e olha para o passado, e o passado anterior, que é um passado visto a partir de outro passado. Em inglês há o presente contínuo, como se o presente pudesse se fixar. E em japonês não há tempos verbais, pelo menos da forma como nós, ocidentais, os entendemos.
Não me lembro de Dona Zélia me ensinando regras gramaticais ou conjugação de verbos. Não que ela não os ensinasse, e bem. O que eu vejo é Dona Zélia com um livro nas mãos, primeiro, abrindo um mundo, depois, me ajudando a encontrar meu lugar nele.
Em silêncio, ela havia decifrado o enigma do verbo apprendre, que, em francês, significa ao mesmo tempo aprender e ensinar. Quem transmite, recebe algo de volta. Mesmo que apenas as palavras que nos ensinou a amar, recolhidas no meio de caminho por um velho menino já com as retinas fatigadas.
Muitos fizeram mestrado, mas mestres são poucos. Muitos ensinam, mas há Professores e Professoras. Muitos têm alto grau de conhecimento, mas pouca sabedoria.
Dona Zélia paira sobre mundos abertos, que abriu para uma multidão de pessoas.
Como aquele sítio em lugar bonito do interior de São Paulo, que dista légua e meia da vila mais próxima, de localização desconhecida. O Sítio do Pica-Pau Amarelo costuma ser visitado por personagens das fábulas, da mitologia, do folclore e da literatura infantil, bem como por nobres da estirpe de Don Quixote de la Mancha. Aconselha-se a consumir com moderação o pó de pirlimpimpim, guardado pelo rinoceronte Quindim e administrado pelo burro falante Conselheiro. Trata-se do pó mais mágico que as fadas inventaram, que deixa a pessoa leve como pluma, tonta, dá uma zoeira nos ouvidos e conduz ao País das Fábulas e ao Mundo das Maravilhas. Mas deve-se tomar cuidado para não molhar o pó com água salgada, pois cessa o efeito*.
E nesses novos mundos, nos céus dessas dimensões espraiadas como clareiras verdejantes, nos horizontes estendidos até os limites do visível e do invisível, em algum lugar, em algum tempo, brinca um menino de 11 anos, e lhe ensina uma jovem professora de português. No céu noturno, a lua crescente é como seu sorriso, luminoso, tranquilo, terno e sereno.
*Adaptado de “Dicionário de Lugares Imaginários”, de Alberto Manguel & Gianni Guadalupe.





