Cinco décadas de engenharia e uma vida dedicada a Pedro Leopoldo

Cinco décadas de engenharia e uma vida dedicada a Pedro Leopoldo

Aos 79 anos, o engenheiro Edilcio Eustáquio Fagundes, o Bila, comemora cinquenta anos de uma carreira marcada pelo compromisso com a cidade. Ele é o segundo homenageado nesta série de reportagens que marcam os dez anos do site AQUI PL 

Bila em 2011, quando foi capa da revista AQUI PL. Na foto, ele está com o neto Samuel, hoje com 16 anos

Há pessoas que deixam marcas pela quantidade de obras que realizam. Outras, pela capacidade de inspirar, reunir pessoas e pensar o futuro da cidade. Edilcio Eustáquio Fagundes, o Bila, reúne essas duas características. Aos 79 anos e completando meio século de profissão, ele é um daqueles personagens cuja história se mistura à própria história de Pedro Leopoldo.

Engenheiro civil formado pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em 1975, Bila celebrou 50 anos de engenharia mantendo intacto o entusiasmo que o levou a escolher a profissão ainda menino. Enquanto outras crianças sonhavam em ser jogadores de futebol ou pilotos, ele se encantava com rodovias, barragens e edifícios. Nas viagens a Belo Horizonte com a mãe, passava longos minutos admirando os prédios iluminados. Ao mesmo tempo, apaixonava-se pela arquitetura barroca de Ouro Preto. Foi justamente dessa combinação entre tradição e modernidade que nasceu sua vocação: preservar a história enquanto ajudava a construir o futuro.

Mas sua história começou muito antes da faculdade. Cresceu em Pedro Leopoldo jogando bola no terreno do antigo Fórum, nadando no Ribeirão da Mata e subindo em árvores para colher goiabas e outras frutas no quintal. Estudou no Grupo Escolar São José e no Colégio Imaculada Conceição. Aos 12 anos, conseguiu o primeiro emprego, como auxiliar de bombeiro hidráulico com Osmar Costa. Também trabalhou na Padaria Panilar antes de concluir o terceiro ano científico no Colégio Arquidiocesano, em Belo Horizonte, e ingressar na Universidade Federal de Ouro Preto.

Durante duas décadas conciliou a carreira na Usiminas com um escritório de engenharia em Pedro Leopoldo. Mais tarde dedicou-se integralmente à cidade, primeiro na Fagundes & Viana, ao lado do amigo Jefferson Viana, o Neném Dedeira, e depois na Iaiá Engenharia, nome escolhido em homenagem à avó. Hoje continua trabalhando ao lado do filho, o engenheiro Juliano Fagundes e tem ao seu lado nesta caminhada a filha Luciana e a companheira Vânia.

Sua primeira grande obra em Pedro Leopoldo foi a reforma e ampliação do Hotel Castilho. Vieram depois milhares de projetos residenciais, comerciais e institucionais. Pela prancheta — e mais tarde pelo computador — de Bila passaram projetos estruturais, hidráulicos, cálculos, avaliações, laudos e reforços estruturais que ajudaram a transformar a cidade.

Bila com os filhos Juliano e Luciana e o colega de classe Armênio, na homenagem que recebeu em Ouro Preto pelos 50 anos de formado

Seu trabalho pode ser visto em construções que fazem parte da vida dos moradores: a sede da Apae, as creches Cescopel e Criança Esperança, igrejas, escolas, a ponte de Vera Cruz, a reforma da Credipel, entre muitas outras edificações espalhadas pelo município. São obras que ultrapassam o concreto e o aço porque ajudaram a melhorar a vida de milhares de pessoas.

Mas limitar Bila à engenharia seria injusto. Sua atuação sempre foi muito além da profissão.

Foi um dos fundadores da Associação dos Engenheiros de Pedro Leopoldo (Asep), criada em 1991 pelos “Sete samurais”, um grupo de profissionais composto ainda por Gersinho, Fabiano, Boró, Sachila, João Victor e Jeferson, o Nenem Dedeira que buscavam fortalecer a engenharia local e valorizar os profissionais da cidade. “Nós nos encontramos no antigo posto Atalaia e começamos ali mesmo a pensar numa entidade que nos reunisse”, lembra Boró.

A Asep cresceu, conquistou respeito e hoje participa ativamente dos conselhos municipais, das discussões sobre patrimônio histórico, meio ambiente, do Plano Diretor, tornando os engenheiros protagonistas do desenvolvimento urbano de Pedro Leopoldo.

Bila também foi um dos responsáveis pela instalação da representação do CREA na cidade, facilitando o atendimento aos profissionais da região e fortalecendo institucionalmente a categoria. Seu espírito comunitário o levou ainda à presidência do Lions Clube, ao trabalho voluntário na Defesa Civil e à participação constante em projetos voltados ao desenvolvimento do município.

Com a turma de Lions

Chegou a se envolver na política e cogitou disputar a Prefeitura, mas sua contribuição para Pedro Leopoldo jamais dependeu de um cargo público, colocando seu conhecimento, seu tempo e sua experiência a serviço de qualquer iniciativa que julgasse importante para a cidade.

A cultura também ocupa um espaço especial em sua trajetória. Participou da grupo de jovens reunido na Jupel e foi um dos colaboradores do livro Arte & Cultura em Pedro Leopoldo: centenário, saberes e encantamentos. Atualmente dedica-se ao projeto do Complexo do Capão, que busca integrar o Casarão do Campinho, a Igreja dos Bexiguentos, o Açude e o Parque do Capão, além do futuro Museu Chico Xavier, transformando aquela região em um espaço de preservação histórica, turismo e convivência para a população.

Em entrevista concedida à revista AQUI PL, em 2011, Bila fez observações que permanecem surpreendentemente atuais. Reconheceu os avanços da cidade, mas chamou atenção para a perda de áreas verdes, defendendo mais arborização, mais praças e melhores espaços para que os jovens pudessem conviver, praticar esportes e desenvolver atividades culturais. Também destacava o enorme potencial do Ceppel e do Parque de Exposições, que, em sua visão, poderiam ser muito mais aproveitados pela comunidade.

Essas ideias revelam um traço marcante de sua personalidade: Bila nunca olhou para Pedro Leopoldo apenas como engenheiro. Sempre enxergou a cidade como cidadão. Um homem de diálogo fácil, generoso, de mente aberta e coração igualmente grande, sempre disposto a ouvir, colaborar e participar.

Cinquenta anos depois de receber o diploma de engenheiro, sua maior obra talvez não seja um prédio, uma ponte ou uma escola. É a confiança que conquistou ao longo de décadas de trabalho sério, ética e compromisso com a coletividade.

Bila é também um dos grandes amigos e parceiros do site AQUI PL, sempre nos apoiando nestes dez anos de caminhada. Nesta matéria, juntamo-nos a seus colegas e amigos para uma homenagem mais do que merecida a este pedro-leopoldense especial. Completam esta edição textos cheios de afeto do filho Juliano e dos amigos Georgina Vieira e Ivan Domingues. 

“Meu pai é meu herói e minha maior referência na engenharia”

Para o engenheiro Juliano Fagundes, dividir o escritório com o pai, Edilcio Eustáquio Fagundes, o Bila, é muito mais do que uma parceria profissional. É a oportunidade de conviver diariamente com aquele que considera seu maior exemplo de vida.

“Meu pai é meu herói, meu melhor amigo e minha maior referência na engenharia. Aos 79 anos, continua cheio de vigor, saúde, energia e, principalmente, conhecimento. Ele nunca guardou o que sabe para si. Sempre fez questão de compartilhar, ensinar e ajudar as pessoas.”

Juliano destaca que Bila permanece em plena atividade profissional, elaborando projetos estruturais, laudos periciais e contribuindo com sua vasta experiência em cada trabalho realizado.

Após encerrar sua passagem pela administração pública municipal, Juliano voltou a se dedicar integralmente à JEF Engenharia, empresa que hoje conduz à frente de novos empreendimentos. Segundo ele, esse retorno também representa a oportunidade de estar novamente ao lado do pai.

Juliano aprendeu com o pai que contribuir com o desenvolvimento de Pedro Leopoldo não depende necessariamente de ocupar um cargo público. “Também podemos ajudar nossa cidade do lado de fora da administração, viabilizando investimentos, incentivando empreendimentos e criando oportunidades. O importante é plantar hoje para colher um futuro melhor.”

Ao falar sobre o pai, a emoção toma conta das palavras.

“É uma honra caminhar novamente ao lado dele. Sou grato a Deus por ter um pai que também é amigo, conselheiro e exemplo. Conviver com ele todos os dias é um privilégio que valorizo profundamente.”

Vida longa ao nosso Bila

Por Ivan Domingues

Edílcio Eustáquio Fagundes, o Bila, como ele é mais conhecido,  faz parte de meu círculo de relações pessoais há mais de cinquenta anos, remontando à primeira turma do científico do Imaculada: a turma de 1967, como nós a apelidamos, nela reconhecendo a nossa grande referência, com a aura de ter sido a 1ª turma e a qual vem se encontrando regularmente até hoje.

Antes, porém, houve a turma dos ginasianos de 1965, composta em sua grande maioria de homens, mais duas mulheres,  totalizando cerca de 25 adolescentes inquietos e barulhentos, então na flor da idade e tendo falecido cinco ou seis deste total, não tenho certeza sobre o montante.

Se eu pudesse definir o Bila com um só traço de caráter, escolhido dentre vários outros de sua figura carismática e querida da nossa cidade, eu escolheria sua enorme empatia e generosidade, não havendo ninguém em nossa PL que não o conheça ou que não tenha dele ouvido falar. Bila é, portanto, uma unanimidade, é a alma da turma de 1967 e desde a sua fundação o seu presidente perpétuo, aquele que faz chover e tudo acontecer, entra ano e sai ano, e de quem eu costumo dizer que ele é a prova cabal do desmentido da invectiva famosa de Nelson Rodrigues,  segundo o qual “toda unanimidade é burra”. Não, o anjo pornográfico não estava certo e Bila é a prova, tendo ele deixado as marcas de sua simpatia transbordante não só  em nossa PL, onde estão suas raízes ancestrais, com Dona Saquita e Didi Maçarico abrindo alas, dos quais sempre fala, como se ainda vivos estivessem.

Além de PL, Bila fincou raízes em Fidalgo, onde ele e Vânia, minha prima, têm sua segunda residência e de cuja região ele tira fotos e mais fotos, do amanhecer e do entardecer, em meio aos ipês amarelos de agosto e do belo pôr do sol das diferentes estações do ano. À Fidalgo  soma-se Ouro Preto, a sua segunda cidade natal, onde Bila viveu de 1969 a 1975, quando estudou na Escola de Minas mais Ivan Sales de Zamico e Maurício de João Leite e com eles morou na república Baviera, enquanto Getúlio de Mocó escolheu a Pulgatório. De novo fotos e mais fotos da Ouro Preto barroquíssima, de seus casarios, de suas festas cívicas e dos tapetes coloridos da semana santa, com Bila lá presente e frequentando regularmente as festas de sua república até hoje.

Por tudo isso, não é exagerado dizer que Bila é uma unanimidade, não lhe faltando, porém, outros talentos, como sua facilidade em matemática, e isto desde sempre, lembrando que ele é  até hoje um dos maiores engenheiros de PL, com expertise em cálculo estrutural. Além do gosto pelas contas e os cálculos, ele, mais jovem, na época do Ginásio e do Científico, foi um excelente jogador de futebol,  como poucos de minha geração,  jogando de cabeça erguida e com rara visão de jogo, habilidades e destrezas que eu, com inveja e admiração, pude apreciar de perto quando morava na cidade. No entanto, um belo dia decidiu cultivar outras potencialidades e ficar com a engenharia, quando se mudou para Outro Preto em 1969, se instalou na república Polo Norte e fez o cursinho para a Escola de Minas. Desde então as coisas  mudaram e muito, mas ele manteve intacta sua paixão pelo futebol e o Clube Atlético Mineiro.

Vida longa a Bila, ao nosso Bila, ao Bila de PL e de todos nós.

Ivan Domingues

Bila: A presença que faz acontecer

Edílcio Eustáquio Fagundes, o nosso Bila, é daqueles personagens que atravessam gerações com a mesma leveza. De idade próxima à de um dos filhos de meu pai, Sinval Alves da Silva, conseguiu ser amigo de todos os sete — e, mais que isso, companheiro inseparável de meu pai no Lions, nas viagens ao Rio, nas saunas semanais e em tantos outros momentos. Bila tem um dom raro: trata a todos com civilidade, gentileza e um sorriso que se abre com ou sem motivo, expressando que todos são bem-vindos em sua vida.

No início, pensei que nossa amizade, desde crianças, fosse apenas reflexo da amizade de nossos pais. Mas, mesmo após a partida deles, ela se manteve firme entre nós, filhos. Quando presidiu o Lions, indicou meu pai como “Pai do Ano”, gesto que nos encheu de orgulho e gratidão. Não era amizade herdada, era algo maior.

Nos anos 1960, fomos contemporâneos no movimento Jupel, registrado em livro lançado em 2021, onde Bila teve papel decisivo. Mais tarde, foi também contemporâneo de meu irmão Getúlio na Escola de Minas, dividindo uma das famosas repúblicas e trocando confidências que perduram até hoje, sempre renovadas nos encontros anuais do Baile do 12.

Convém nos deter um pouco nesse Baile, pois diz muito sobre o próprio Bila. O Baile do 12, realizado em Ouro Preto, é muito mais que uma festa: é um ritual de memória e pertencimento da Escola de Minas da UFOP. Celebrado em 12 de outubro, data da fundação da instituição em 1876, o evento integra a tradicional Festa do Doze, que reúne estudantes, professores, ex-alunos e toda a comunidade emopiana. Embora nascido em Ouro Preto, o Baile também se estendeu para Belo Horizonte. Lá, ex-alunos e engenheiros formados pela instituição mantêm viva a celebração, organizando encontros e bailes que recriam o espírito da festa original. Essa dualidade — o barroco mineiro de Ouro Preto e a modernidade de BH — certamente reflete o jeito Bila de ser. O Baile do 12 é rito, memória e poesia: um elo entre pedra e ouro, ciência e cultura, tradição e juventude, barroco mineiro e contemporaneidade da nossa capital. E, por que não?, um paralelo interessante entre D. Pedro II, que fundou a Escola de Minas, e JK/Oscar Niemeyer, que inscreveram Belo Horizonte na vanguarda da modernidade. E nesse paralelo, paira o Bila.

Precisei dessa digressão para, sobre ele, falar. Sua trajetória profissional carrega o rigor técnico da engenharia, mas também o espírito humano e cultural que o tornam referência de dedicação e ética.

Ao trazer dentro de si variadas gerações, Bila transita igualmente nos bailes do Doze, na Associação de Engenheiros de Pedro Leopoldo, no Lions Clube, na “Turma do Científico” e em todas as iniciativas de qualquer ordem ou objetivo. Está nos livros que ajudou a construir, como Arte & Cultura em Pedro Leopoldo: Centenário, saberes e encantamentos. Sem ele, ideias seriam apenas intenções. Não há evento sem o Bila, como não há “futebol sem bola”, como cantavam Claudinho e Buchecha em famoso funk.

Bila é rito e presença. É aquele que abre portas, envia fotos, compartilha notícias, acompanha a vida política da cidade e está sempre disponível. Bila é rito: ninguém o verá triste ou acabrunhado; ninguém passará por ele sem cumprimentar ou ser cumprimentado. Estar com ele é celebrar a civilidade, a gentileza, a elegância de ser.

Não é difícil falar sobre Bila: difícil é parar de falar, subtrair memórias para não estender o texto, deixar de contar tantos casos e lembranças comuns que me fazem pensar que seria mais fácil carregar, em silêncio, todo o afeto e admiração que tenho por ele.

Ao Bila,

com carinho.

Georgina

Bianca Alves

Criadora e editora do projeto AQUI PL, é formada em Comunicação Social pela UFMG e trabalhou em publicações como os jornais O Tempo, Pampulha, O Globo; revistas Isto é, Fato Relevante, Sebrae, Mercado Comum e site Os Novos Inconfidentes

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