Lamas Destilaria terá projeto paisagístico inovador e sustentável

Lamas Destilaria terá projeto paisagístico inovador e sustentável

Indivíduo remanescente de Dimorphandra wilsonii (Faveiro de Wilson) no Cerrado em Paraopeba (MG)

Proposta valoriza o Cerrado, dialoga com a região do Carste e protege o Faveiro-de-Wilson

O projeto arquitetônico da Lamas Destilaria, que está sendo instalada em Pedro Leopoldo, nasce com uma vocação clara: integrar natureza, cultura e sustentabilidade em uma experiência reveladora. Concebido pelo renomado arquiteto Gustavo Penna, tem à frente do projeto paisagístico o biólogo Joaquim de Araújo Silva, o Quincas, doutor em Ecologia pela UFMG e ex-curador botânico do Inhotim.

Para o biólogo, o paisagismo é parte orgânica do conjunto arquitetônico e confere identidade própria ao empreendimento. “Nós entendemos que o projeto da Lamas tem a proposta de proporcionar uma experiência, uma vivência, em que a natureza tem um papel muito importante”, afirma Quincas.

Mais do que um ornamento, ela se impõe como um componente vivo que convida o visitante a sentir, aprender e conviver com a biodiversidade local.  “Optamos por uma abordagem chamada de ecopaisagismo, utilizando elementos florísticos de espécies que são nativas da região. É ele que vai criar cenários e ambientes únicos, fortalecendo a linguagem do projeto como um todo”, acrescenta.

Palmeiras jerivá, mulungus, ipês roxo e amarelo, barbatimões, cedros-rosa e baraúnas compõem cenários que, além de esteticamente marcantes, favorecem a presença de abelhas, aves e pequenos mamíferos. “Seu potencial ornamental se mostra discreto na natureza, por sua distribuição aleatória, mas o paisagismo possibilita ordená-las de maneira que sua beleza se torne exuberante e seja valorizada”, observa Quincas.

Os processos naturais de polinização e frutificação passam a integrar o cotidiano do jardim, reforçando um ciclo virtuoso entre paisagem e biodiversidade. Essa dinâmica está presente, por exemplo, no jardim sensorial, onde espécies como o capim-vassoura (Andropogon bicornis) convidam à contemplação, mas também despertam memórias e sentidos.

“Aí nós temos a floração e o perfume, que atraem os pássaros e vão propiciar ao jardim uma dinâmica que aguça todos os sentidos e pode ser percebida pelo visitante. As espécies estão adaptadas àquelas condições ambientais e fica mais fácil de estar tudo vistoso, sempre atraente. É uma experiência agradável, harmoniosa”, salienta o biólogo.

Croqui do projeto paisagístico detalha cada uma das áreas do jardim

Harmonia que permite contar boas histórias, tal como acontece no processo de construção da bebida, que exige paciência, precisão e respeito ao tempo da natureza. Esta alquimia que, no caso das bebidas Lamas, resulta em um sabor único, repete-se em meio à natureza que cerca (e embeleza) as áreas de produção. A vegetação adaptada aos solos calcários ganha destaque em composições que visam tanto a beleza quanto a resiliência ecológica.

Em Pedro Leopoldo, a geologia do carste dá o tom e inspira o projeto. O jardim se insere e integra a APA Carste Lagoa Santa e o circuito da rota Lund, resgatando a identidade regional e valorizando o patrimônio natural e cultural do território. “Esta é uma vegetação que se desenvolve bem ali. Queremos dar visibilidade à APA e à rota Lund, em um jardim que dialoga com a região”, define Quincas.

Um jardim que dialoga com a região, define o biólogo Joaquim de Araújo Silva, o Quincas

Um dos diferenciais do projeto é a criação do primeiro ecojardim dedicado ao Faveiro-de-Wilson (Dimorphandra wilsonii Rizzini), espécie criticamente ameaçada e símbolo de resistência do Cerrado. A iniciativa integra o Plano de Ação Nacional para Conservação do Faveiro-de-Wilson, coordenado pelo Centro Nacional de Conservação da Flora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e pela Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica de Belo Horizonte, sob coordenação do Ministério do Meio Ambiente, em parceria com universidades, organizações do terceiro setor e órgãos ambientais, como ICMBio e IEF.

O Faveiro-de-Wilson é espécie protegida pelo Decreto nº 43.904/2004, que proíbe seu corte e exploração, justamente em razão do risco crítico de extinção. Para dimensionar a relevância dessa proteção, o grupo gestor do PAN, em 2014, havia identificado apenas 246 indivíduos da espécie em todo o estado de Minas Gerais.

“O carste é uma das regiões do país onde ainda podem ser encontrados alguns exemplares. Aqui poderemos avaliar como o Faveiro-de-Wilson se desenvolve desde a muda. Será uma verdadeira estação experimental, onde serão feitos estudos, junto aos técnicos de centros de pesquisa, que corroboram a estratégia nacional. Isso traz visibilidade para a área, que entra no radar de pesquisas, o que confere um significado importante ao local e ao projeto como um todo”, revela Quincas.

Ao aproximar ciência, educação e paisagem, o projeto fortalece a estratégia nacional de conservação, amplia a visibilidade do tema e insere Pedro Leopoldo no mapa de iniciativas de referência em conservação do Cerrado. Para a comunidade local, isso se traduz em oportunidades concretas de participação, aprendizado e orgulho de pertencimento.

A Lamas Destilaria entende que conservação se faz com gente. Por isso, a empresa abrirá suas portas para ações de educação ambiental, visitas guiadas e atividades de sensibilização dedicadas às escolas e moradores. Valorizar o Cerrado, respeitar a legislação que protege o Faveiro-de-Wilson e celebrar as vocações do território é o caminho para que natureza e economia caminhem juntas, com responsabilidade, transparência e impacto positivo duradouro.

Bianca Alves

Criadora e editora do projeto AQUI PL, é formada em Comunicação Social pela UFMG e trabalhou em publicações como os jornais O Tempo, Pampulha, O Globo; revistas Isto é, Fato Relevante, Sebrae, Mercado Comum e site Os Novos Inconfidentes

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